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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Não é a Grécia. É o capitalismo, estúpido!

 Por Atilio Boron - de Buenos Aires, publicado originalmente no Correio do Brasil, de 13/07/11. 
As mídias, as consultorias, os economistas, os bancos de investimentos, os presidentes dos bancos centrais, os ministros de fazenda, os governantes não fazem outra coisa que falar da “crise grega”. Ante tal vozerio mal intencionado, é oportuno parafrasear um exemplo da campanha de Bill Clinton para dizer e insistir que a crise é do capitalismo, não da Grécia. Que este país é um dos elos mais frágeis da cadeia imperialista e que é por causa dele que ali ocorre a eclosão das contradições, ora corroendo-o irremediavelmente.
O alarme dos capitalistas, sem dúvida justificado, é que a queda da Grécia pode arrastar outros países como Espanha, Irlanda, Portugal e comprometer seriamente a estabilidade econômica e política das principais potências da União Europeia.Segundo informa a imprensa financeira internacional, representante dos interesses da “comunidade de negócios” (leia-se: os gigantescos oligopólios que controlam a economia mundial), a resistência popular às brutais medidas de austeridade propostas pelo ex-presidente da Internacional Socialista e atual primeiro ministro grego, Georgios Andreas Papandreu, ameaçam jogar pela janela todos os esforços até agora realizados para amenizar a crise.
A aflição se espalha no patronato frente às dificuldades com que tropeça Atenas para impor as brutais políticas exigidas por seus supostos salvadores. Com toda razão e justiça, os trabalhadores não querem ser responsabilizados por uma crise provocada pelos jogadores das finanças, e a ameaça de uma explosão social, que poderia reverberar por toda a Europa, tem paralisado as lideranças governamentais grega e europeia. A injeção de fundos outorgada pelo Banco Central Europeu, o FMI e os principais países da zona do euro não têm feito nada a não ser agravar a crise e fomentar os movimentos especulativos do capital financeiro.
O resultado mais visível tem sido acrescentar a exposição dos bancos europeus ao que já aparece como uma inevitável moratória grega. São conhecidas as receitas do FMI, do BM e do Banco Central Europeu: redução de salários e aposentadorias, demissões massivas de funcionários públicos, privatização de empresas estatais e desregulamentação dos mercados para atrair investimentos.
Elas têm surtido os mesmos efeitos sofridos por vários países da América Latina, notoriamente a Argentina. Pareceria que o curso dos acontecimentos na Grécia se encaminha para uma estrondosa queda como a que os argentinos conheceram em dezembro de 2001. Deixando de lado algumas óbvias diferenças, há demasiadas semelhanças que abonam este prognóstico. O projeto econômico é o mesmo, o neoliberalismo e suas políticas de choque; os atores principais são os mesmos, o FMI e os cães de guarda do imperialismo em escala global; os ganhadores são os mesmos, o capital concentrado e especialmente a banca e as finanças; os perdedores são também os mesmos, os assalariados, os trabalhadores e os setores populares; e a resistência social a essas políticas tem a mesma força que soube ter na Argentina.
É difícil imaginar um soft landing, uma aterrissagem suave, desta crise. O previsível e mais provável é precisamente o contrário, tal como ocorreu no país sul-americano. Claro que, diferentemente da crise argentina, a grega está destinada a ter um impacto global incomparavelmente maior. Por isso o mundo dos negócios contempla com horror o possível “contágio” da crise e seus devastadores efeitos entre os países do capitalismo metropolitano. Estima-se que a dívida pública grega alcança os US$ 486 bilhões e que representa uns 165% do PIB do país. Mas tal coisa ocorre numa região, a “eurozona”, onde o endividamento já ascende os 120% do PIB dos países, com casos como o da Alemanha, (com cerca de 143%), França (188%) e Grã Bretanha (398%).
Não deve ser esquecido, além disso, que a dívida pública dos Estados Unidos já alcança 100% de seu PIB. Em uma palavra: o coração do capitalismo global está gravemente adoecido. Por contraposição, a dívida pública chinesa em relação ao seu gigantesco PIB é de apenas 7%, a da Coreia do Sul 25% e a do Vietnã 34%.
Há um momento em que a economia, que sempre é política, se transforma em matemática e os números cantam. E a melodia que entoam diz que aqueles países estão na beira de um abismo e que sua situação é insustentável. A dívida grega – exitosamente dissimulada em sua gestação e desenvolvida graças ao conchavo criminoso de interesses entre o governo conservador grego de Kostas Karamanlis e o banco de investimento favorito da Casa Branca, Goldman Sachs – foi financiada por muitos bancos, principalmente na Alemanha e, em menor medida, França.
Agora são credores de papéis de uma dívida que a qualificadora de riscos Standard & Poor’s (S&P) classificou com a pior nota do mundo, CCC, isto é, tem crédito sobre um devedor insolvente e que não tem condições de pagar. Em igual ou pior posição se encontra o ultraneoliberal Banco Central Europeu, razão pela qual um ‘calote’ grego teria conseqüências cataclísmicas para este verdadeiro ministro das finanças da União Europeia, situado à margem de qualquer controle democrático.
As perdas que originaria a bancarrota grega não só comprometeriam os bancos expostos, mas também os dos países com problemas, como Espanha, Irlanda, Itália e Portugal, que teriam de suportar juros mais elevados que os atuais para equilibrar suas deterioradas finanças.
Não é preciso muito esforço para imaginar o que sucederia se os gregos suspendessem unilateralmente os pagamentos, cujo primeiro impacto se daria na linha de flutuação da nave européia, a Alemanha. Os problemas da crise grega (e europeia) são de origem estrutural. Não se devem a erros ou a percalços inesperados senão que expressam a classe de resultados previsíveis e esperados quando a especulação e o parasitismo rentista assumem o posto de comando do processo de acumulação de capital.
Por isso, no fragor da Grande Depressão dos anos 30, John Maynard Keynes recomendava, em sua célebre Teoria Geral da Ocupação, Juros e o Dinheiro, praticar a eutanásia do rentista como condição indispensável para garantir o crescimento econômico e reduzir as flutuações cíclicas endêmicas no capitalismo.
Seu conselho não foi considerado e hoje são aqueles setores os que se apropriaram da hegemonia capitalista, com as consequências por todos conhecidas. Comentando sobre esta crise, Istvan Meszaros dizia há poucos dias que “uma crise estrutural requer soluções estruturais”, algo que quem está administrando a crise rechaça terminantemente. Pretendem curar um doente em estado gravíssimo com aspirinas.
É o capitalismo que está em crise e para sair dela torna-se imprescindível sair do capitalismo, superar o quanto antes um sistema perverso que conduz a humanidade ao holocausto em meio a enormes sofrimentos e uma depredação meio-ambiental sem precedentes. Por isso, a mal chamada “crise grega” não é assim; é, em lugar disso, o sintoma mais agudo da crise geral do capitalismo, essa que os meios de comunicação da burguesia e do imperialismo asseguram há três anos que já está em vias de superação, apesar de as coisas estarem cada vez pior.
O povo grego, com sua firme resistência, demonstra estar disposto a acabar com um sistema que já é inviável não no longo, mas no médio prazo. Há que acompanhá-lo em sua luta e organizar a solidariedade internacional para tratar de evitar a feroz repressão de que é objeto, método predileto do capital para solucionar os problemas que cria sua exorbitante voracidade. Talvez a Grécia – que há mais de 2.500 anos inventou a filosofia, a democracia, o teatro, a tragédia e tantas outras coisas – possa voltar-se sobre seus foros e inventar a revolução anticapitalista do século 21. A humanidade lhe estaria profundamente agradecida.
Atilio Borón é doutor em Ciência Política por Harvard e professor da Universidade de Buenos Aires.

domingo, 3 de julho de 2011

O Brasil e a crise que está por vir


Por raquel_
Da CartaCapital
O pior da crise está por vir
Antonio Luiz M. C. Costa30 de junho de 2011 

O mundo vive um clima mais perigoso que o de 2008, mas faz de conta que nada vai acontecer. Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Angelos Tzortzinis/AFP

Deixemos de lado, ao menos por um momento, as controvérsias sobre se a taxa de inflação deste ano vai ficar mais próxima de 6% ou de 6,5%, sobre se o PIB vai chegar a 4%, se as metas de inflação para 2012 e 2013 são adequadas ou não, se a próxima reunião do Copom vai aumentar o juro básico em 0,25% ou 0,5%. Tudo isso é um pouco como discutir se convém trocar a geladeira velha ou qual o quarto de hotel a ser reservado para as férias do ano que vem, enquanto se ouvem soar as sirenes de alerta.
A questão é: como deveríamos nos preparar para o tsunami financeiro que está a caminho?
Em 2008, o Brasil saiu quase incólume da crise financeira que pôs em pânico todo o Hemisfério Norte e também os países mais dependentes das exportações para os desenvolvidos, como o México. Quase, pois seu desempenho econômico no ano seguinte, mesmo sendo o sexto melhor do G-20, registrou ligeira queda (-0,2%) e sabe-se hoje como o Banco do Brasil foi forçado a socorrer grandes empresas como Sadia e Aracruz e pequenos e médios bancos que tiveram enormes perdas com derivativos (inclusive o Votorantim, que acabou absorvido). Um dos maiores grupos financeiros, o Unibanco, foi forçado a abrir mão da independência para o Itaú.
É praticamente certo que em um futuro não determinado, mas bem próximo – como no caso de um terremoto, não é possível precisar se daqui a três anos, ou já nos próximos meses –, o mundo enfrentará uma crise de proporções semelhantes ou maiores, tendo os grandes bancos europeus como provável epicentro, ainda que os EUA e o Japão também inspirem muitas preocupações. O tamanho exato da encrenca importa menos que o fato de que muitos dos principais países desenvolvidos exauriram sua capacidade de endividamento ao absorver o golpe de 2008. Desta vez, pode não haver rede de segurança capaz de deter a propagação de um colapso financeiro e amenizar a recessão. Para não falar dos limites da paciência dos eleitores.
A Grécia, supõe-se que todos saibam, é apenas a ponta do iceberg. Em 18 de junho, o presidente do Eurogrupo (conselho dos ministros da Fazenda da Zona do Euro), o luxemburguês Jean-Claude- Juncker, foi claro: “Brincamos com fogo. A falência (da Grécia) pode contaminar Portugal e a Irlanda e, por causa do endividamento, atingir a Bélgica e a Itália antes mesmo da Espanha”.
Mesmo depois de Giorgios Papandreou conseguir o voto de confiança do Parlamento para o novo ministério e o novo acordo e pacote de “austeridade” da troika UE-FMI-BCE, as opiniões não mudaram. “Nos próximos três anos, veremos diferentes economias enfrentarem diferentes problemas. Para as europeias, especialmente a Grécia, será pela moratória”, disse Mohammed El-Erian, presidente da Pimco-, maior operadora de títulos do mundo. “Se a insanidade é fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes, o acordo com a Grécia é insano”, escreveu Martin Wolf no Financial Times. E ao menos no caso da Irlanda, a situação piora até mais rápido.
“A maioria dos economistas não vê alternativa a algum tipo de moratória”, confirma Mike Wickens, consultor do FMI. “Calote ou reescalonamento, precisam fazer isso de algum jeito.” Para a Grécia, não precisaria ser o fim do mundo, observa o economista britânico: Argentina, Rússia e México renegociaram suas dívidas e isso os ajudou no longo prazo. O próprio Reino Unido terminou a Segunda Guerra Mundial com uma dívida de mais de 180% do PIB, que chegou a 238% entre 1946 e 1947. Renegociou com os EUA para estender seu prazo de pagamento em 30 anos e, na verdade, só acabou de pagá-la em janeiro de 2007. Mas os financistas da Europa e do mundo não estão preocupados com os gregos, e sim com os seus credores.
A ordem de grandeza da dívida grega, 340 bilhões de euros (145% do PIB), é quase a da falência do Lehman Brothers, que ao quebrar devia 613 bilhões de dólares ou 410 bilhões de euros. Mas é apenas uma fração do problema em potencial. Em estimativa de 2010, os bancos da França detinham 575 bilhões de euros em dívidas dos PIIGS, os da Alemanha 385 bilhões, os do Reino Unido 174 bilhões e os dos EUA 88 bilhões. O total dessas dívidas é de 4,5 trilhões, nas mãos de bancos e outras instituições, europeias ou não. E hoje, tempos de PIIGS do B, é preciso somar ainda a Bélgica, que deve cerca de 1 trilhão de euros. Ao todo, 5,5 trilhões, perto de 65% do PIB da Zona do Euro.
É a dispersão dos credores que inviabiliza uma concordata organizada e leva a troika a teimar com planos inviáveis. Segundo o ministro da Fazenda alemão, Wolfgang Schäuble, o sonho é convencer os maiores credores da Grécia (e, eventualmente, de outros devedores) a trocar “voluntariamente” seus títulos por outros de vencimento mais longo e menor rendimento, aceitando o inevitável prejuízo contábil. Na vida real, a protelação serve, no máximo, para ganhar tempo para que os bancos privados se livrem de parte de seus títulos, se encontrarem otários, quer dizer, compradores (provavelmente, o setor público), ou ajeitem sua contabilidade dando baixa em seus títulos.
Uma renegociação poderia ter funcionado até os anos 1970, quando grande parte das dívidas externas era contratada com governos ou grandes bancos fortemente regulamentados. Hoje, os títulos ao portador e derivativos neles baseados estão nas mãos de bancos grandes e pequenos muito desregulamentados, fundos de pensão, fundos especulativos, empresas industriais e pessoas físicas. É impossível fazê-los concordar – muitos deles não admitem sofrer um prejuízo e outros especulam de maneira a ter muito a ganhar com uma moratória ou mesmo com o colapso do euro.
Uma renovação não “voluntária” fará as agências de classificação declararem a dívida em moratória. Será legalmente impossível ao BCE (e outras instituições análogas no mundo) aceitar seus títulos como colaterais, ou seja, garantias de empréstimos do Banco Central aos bancos privados. Quando vier uma corrida bancária, não poderão ser socorridos pelos bancos centrais dentro das normas atuais, o que pode gerar falências em cascata e uma reação em cadeia maior que em 2008. E é ilusão, claro, pensar que em tempos de globalização o problema pode ser confinado à Zona do Euro.
Nos Estados Unidos e no Reino Unido, o setor público também está sobrecarregado de dívidas, assumidas ao socorrer bancos e grandes indústrias privadas, distribuir pacotes de estímulos ou apenas manter os serviços sociais e a máquina pública em funcionamento diante da queda da arrecadação na crise de 2008. E, ao contrário do que esperavam seus governos, suas economias não tiveram uma recuperação convincente. Ao contrário, parecem voltar a se deteriorar depois de uma breve retomada que não chegou a reduzir substancialmente o desemprego.
O dilema britânico, apesar de grande, não é dos mais urgentes. O crescimento é baixo, o endividamento é alto (60% do PIB) e continua a subir (para 100% em 2012, estima-se) e o governo conservador está descobrindo que não será tão fácil quanto esperava forçar goela abaixo dos eleitores os cortes na educação, saúde e assistência social que pretende impor, mas ainda não está muito desgastado e a oposição tem sido bem cordata.
Os Estados Unidos são outra história. O PIB cresce, mas em ritmo muito inferior ao costumeiro na saída de uma recessão e muito abaixo dos cerca de 3% ao ano necessários para repor empregos. A dívida líquida está em 62% do PIB, caminhando para 69% em 2020 e os indicadores econômicos de maio foram ruins, apontando queda do número de empregos e dos preços dos imóveis. Mas a questão decisiva não é econométrica.
Em outros tempos, dava-se como axiomático que os títulos de dívida dos EUA, ou T-Bonds, eram tão seguros quanto barras de ouro, se não mais. Devedor na própria moeda que emite, na pior das hipóteses, o Tio Sam sempre poderia imprimir dólares para pagá-los. Com algum risco de inflacioná-los, mas até o preço do ouro sofre flutuações. Agora já não é bem assim: o risco de moratória dos EUA começa a ser pensado e medido e não parece tão baixo assim aos especuladores. No curto prazo, maior que o do Brasil, para ser exato: em 15 de junho, os CDS (derivativos de garantia contra moratória) dos EUA com prazo de um ano eram negociados em 49,8 pontos-base, ante 48 da Itália, 39 do Brasil, 38 do Japão, 19 do Reino Unido e 5 da Suécia.
Ao site Market Watch, Ethan Harris, economista do Bank of America Merrill Lynch, acha que uma moratória temporária dos T-Bonds não seria o pior dos cenários. Embora preferisse um ajuste moderado e um acordo para lidar estruturalmente com o déficit a longo prazo, Harris acha que o calote é preferível aos cortes selvagens de gastos públicos que a oposição tenta impor ao negar autorização para elevar o teto da dívida pública, impasse que tem prazo até 2 de agosto para ser superado.
Se na Europa é a pulverização das dívidas que inviabiliza a negociação, nos EUA é a política: os republicanos do Tea Party veem na crise apenas uma oportunidade de abalar um governo fragilizado e abrir caminho para uma pauta radical de abolição do bem-estar social. O resultado é semelhante: o risco de moratória não como uma reestruturação planejada, mas como um calote desorganizado, criando caos nos mercados cambiais e financeiros. A alternativa, suspender os serviços públicos para pagar a dívida, seria ainda pior para a economia dos EUA e do mundo. E se Wall Street precisar de novo socorro, não encontrará um governo em condições de salvá-la da embrulhada europeia ou de suas próprias mancadas.
O Japão é, hoje, a mais endividada das grandes nações (dívida bruta de 227% do PIB e líquida de 122%). É resultado menos da crise internacional de 2008 do que da crise nacional iniciada em 1991, da qual nunca conseguiu sair completamente. O quadro foi, porém, subitamente piorado pelo desastre natural de março deste ano. Tanto pelos inevitáveis danos diretos quanto pelos secundários, resultado de se ter subestimado os riscos de terremotos e tsunamis para as usinas nucleares, o governo japonês viu-se sobrecarregado por mais gastos ao mesmo tempo que o racionamento de energia derruba produção e exportações. Como a dívida japonesa é quase toda interna e seus juros são quase nulos, não há risco aparente de moratória, mas essa situação contribui para a estagnação da economia global e adia para um futuro ainda mais distante as esperanças de recuperação da economia japonesa.
Quanto à China, esta atravessa a fase na qual o crescimento quantitativo precisa ser transformado em qualitativo, com menos ênfase em exportações, investimentos e crescimento do PIB (deve cair de 10% ao ano para 7%, segundo os planos oficiais) e mais em consumo, desenvolvimento do mercado interno, distribuição de renda e bem-estar social. Por maiores que sejam os poderes do Estado para administrar a transição, acidentes de percurso podem acontecer. Empresas e investimentos planejados para o cenário antigo podem ser inviabilizados e a expansão do consumo pode resultar em uma bolha de crédito tão perigosa quanto a do Japão nos anos 1980 ou dos EUA nos 2000. Parece ser um problema para a próxima década, mas pode ser antecipado se o sistema político chinês mostrar fragilidades imprevistas.
Quando tantas coisas podem dar terrivelmente errado, algumas com maior, outras com menor probabilidade, é quase certo que uma delas vai acontecer. Não é tempo de business as usual: a prioridade não deveria ser discutir ajustes de rotina, minúcias das projeções de curto e médio prazo ou maneiras de obter melhores notas das agências de classificação de risco, mas quais medidas poderão ser tomadas quando a catástrofe vier.
Se grandes bancos europeus ou norte-americanos quebrarem de repente e o crédito sumir, o governo brasileiro tem como evitar a propagação da desconfiança para os bancos e empresas nacionais? Se os grupos financeiros internacionais tiverem, de repente, de sacar aplicações nos países periféricos para fazer frente à crise de confiança interna, o Brasil terá instrumentos para evitar o caos cambial? As repostas a essas questões, mais que a exata dimensão dos gastos públicos ou os preparativos para a Copa do Mundo, é que vão definir o fracasso ou sucesso do governo e do próprio País até 2014.

domingo, 26 de junho de 2011

Crise: déficit maior é de democracia, não de ajuste fiscal


A dimensão sistêmica da crise não é um atributo apenas da esfera econômica, mas argui a capacidade da esquerda de intervir para mudar o rumo da engrenagem em pane, em vez de se comportar apenas como um dente constitutivo da sua mecânica. O capitalismo não se auto-destrói. Assim como não existe autorregulação dos mercados não há auto-imolação do capital. Se as respostas não vierem da esquerda, a direita fará o serviço, como tem feito na periferia européia com mão-de-obra social-democrata.

Por que uma camareira não teve medo de denunciar o dirigente máximo do FMI, mas os partidos e governos vergam diante do Fundo e das imposições dos mercados financeiros?

A pergunta soa irônica. Mas encerra uma cortante ilustração dos dilemas embutidos numa crise em que os mercados financeiros encontram liberdade para pautar as ‘soluções’ - e explicações - para o colapso que criaram, poupando-se de maiores ônus em detrimento da economia e da sociedade.

A pirueta não seria possível sem a rede de segurança que tem sido estendida pelos governantes e legendas de esquerda, colonizados pela capacidade argumentativa das finanças em repetir à exaustão nos últimas quatro décadas: ‘não há alternativa’.

A indiferenciação entre direita e a esquerda no manejo da crise tem sedimentação histórica. O que se vê hoje é a fotografia de corpo inteiro de uma longa captura da social-democracia pelo cânone neoliberal, o que permitiu às finanças desreguladas tornarem-se o eixo ordenador da economia e de todas as instâncias da sociedade.

A comparação entre a coragem da camareira e a submissão aos ditames dos mercados toma emprestado um raciocínio do economista Robert Kuttner, em seu artigo ‘O paradoxo do progresso social e da reação econômica’, publicado por Carta Maior.

O texto de Kuttner chama a atenção para um aspecto pouco explorado do escândalo envolvendo Dominique Strauss Kahn: a questão do poder real subjacente aos protagonistas.

Afinal, como foi que uma camareira do sofisticado Sofitel da Times Square de Nova Iorque, que cobra diárias de US$ 3 mil, teve a coragem de denunciar o então diretor máximo do FMI por abuso sexual?

A resposta, explica Kuttner , remete em boa parte à organização dos conselhos de base que tornaram os trabalhadores da rede de hotéis e motéis de Nova Iorque uma das categorias mais poderosas do país. ‘O sindicato dela é um dos mais fortes sindicatos da América – não é forte por conta dos dirigentes sindicais, mas porque está imerso no local de trabalho”, detalha o economista cujo texto contrasta os avanços acumulados nas últimas décadas na esfera dos costumes e da tolerância e a regressividade econômica.

"Como é que demos passos tão pesados para trás em questões econômicas?", pergunta Kuttner. "Isso se deve ao poder", responde. “Os proprietários da riqueza financeira se tornaram cada vez mais poderosos politicamente; os movimentos que lhes são contrários se tornaram drasticamente enfraquecidos".

A trinca aberta entre a base da sociedade e aqueles que deveriam vocalizar esse conflito , mas, sobretudo, a desorganização dessas bases e a negligência deliberada de muitos partidos em fortalecê-las redundou no divórcio explícito revelado pela atual crise.

Na Europa, a distância entre o sentimento das ruas e o que decidem e implementam governantes e parlamentos atingiu proporções caricatas.

O fosso é proporcional à virulência do que se busca despejar nos ombros da sociedade como condição para a rolagem de empréstimos de bancos e credores. Quando multidões cercam parlamentos e tem seus anseios rechaçados por eles é porque um ciclo da história se esgotou.

Em recente entrevista à Carta Maior, o filósofo Vladimir Safatle, afasta a interpretação algo ingênua de quem vê nessa clivagem uma saturação ‘da forma partido’, supostamente substituída por ferramentas digitais mais ágeis, como o Twiter e o Facebook na expressão do conflito social.

Safatle ressalta que as principais mobilizações de massa que ocorrem nesse momento acontecem, de fato, à margem dos partidos, não raro, a sua revelia. “O que limita seus resultados”, pontua. “Não creio que podemos ‘mudar o mundo sem conquistar o poder’. Quem gosta de ouvir isto são aqueles que continuam no poder. (...) Só se contrapõe ao domínio do mundo financeiro através de um aprofundamento da democracia plebiscitária”, defende na entrevista.

O déficit de democracia emerge, portanto, como o mais importante desequilíbrio revelado pela crise, em contraposição ao poder capilar, estrutural, midiático e institucional acumulado pelo capital financeiro.

Tal hegemonia, explica o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, em textos inéditos de seu novo livro publicados por Carta Maior (“capítulo V, ‘Sistema de Crédito, Capital Fictício e Crise’), não é um acidente de percurso. Trata-se de um desdobramento estrutural da tendência ao mesmo tempo expansionista e concentradora do capitalismo, o que torna a tarefa de contrastá-la um desafio de reposicionamento estratégico da esquerda. A começar pelo seu conceito de democracia, hoje acomodado aos limites do formalismo parlamentar.

A dinâmica que leva à concentração de poder e de capitais em mãos do sistema financeiro --sancionada politicamente pelas medidas desregulatórias da dupla Tatcher /Reagan— gera uma inevitável ‘superprodução’ de capitais fictícios que deu origem à especulação avassaladora seguida da crise atual.

Mais que isso, porém, ela colonizou a agenda política, que cuidou de terceirizar os destinos da economia e da sociedade aos desígnios das finanças, ou à “eficiência ímpar dos mercados autorreguláveis para alocar recursos e gerar resultados, com maior eficiência e menor custo”.

Apenas um governo parece ter entendido a saturação desse processo ao devolver ao poder plebiscitário da sociedade as decisões relativas à superação da crise financeira. “Somos uma democracia, não um sistema financeiro” , disse o presidente da pequena Islândia, Ólafur Grímsson.

Ser uma democracia, não uma subseção do sistema financeiro, ou uma ‘democracia real’ como pedem as multidões em Portugal, Espanha e Grécia, em pleno apogeu do capital financeiro, não é tarefa que se improvise.

O crepúsculo ideológico do neoliberalismo acentuado pelos desdobramentos da crise, ainda não foi suficiente para reduzir a distância entre o poder dos blindados financeiros e os tímidos ensaios de democracia participativa. Imaginar que isso poderá ser feito à margem de estruturas organizativas, a exemplo de partidos políticos enraizados em instâncias democráticas, não parece ser uma escolha acertada à luz do jogo bruto em curso.

Jogá-lo para valer implica a construção de linhas de passagem que exigem direção, coordenação e profunda capilaridade social.

Em entrevista a um programa de televisão brasileira em 2002, o filósofo István Mészàros, de insuspeita radicalidade analítica, antecipava que o desafio enfrentado pela esquerda na atualidade não é ‘simplesmente vencer um bando de capitalistas” e substituí-lo por outro grupo capturado pela mesma lógica dos mercados.

“Sem estratégia não se pode ter tática”, discorreu Mészàros:

“Sem uma perspectiva estratégica desses problemas você não pode ter soluções do dia-a-dia... eles não podem ser simplesmente tratados no nível de um artigo que apenas relata o que está acontecendo(...) No lugar disso, deve ser apresentada uma perspectiva histórica. Marx argumenta que os capitalistas são simplesmente personificações do capital. Não são agentes livres; estão executando imperativos do sistema. Então, o problema da humanidade não é simplesmente vencer um bando de capitalistas. Pôr simplesmente um tipo de personificação do capital no lugar do outro levaria ao mesmo desastre; cedo ou tarde terminaríamos com a restauração do capitalismo. Os problemas que a sociedade está enfrentando não surgiram apenas nos últimos anos. A única solução possível é a reprodução social com base no controle dos produtores. Essa sempre foi a idéia do socialismo”.

“Precisamos”, emenda Vladimir Safatle, na mesma direção, na entrevista à Carta Maior, "(construir) um discurso de esquerda alternativo que esteja em circulação no momento em que as possibilidades de ascensão social (da chamada classe C) baterem no teto”.

Naturalmente, Safatle condensa na palavra ‘discurso’ o sentido amplo da práxis política. O que inclui a mobilização organizativa capaz de revitalizar as fronteiras da democracia e do socialismo para além dos limites embolorados dos nossos dias.

A dimensão sistêmica da crise, portanto, não é um atributo apenas da esfera econômica, mas argui a capacidade da esquerda de intervir para mudar o rumo da engrenagem em pane, em vez de se comportar apenas como um dente constitutivo da sua mecânica.

O que se assiste por enquanto é a degradante marcha em sentido contrário. Cada passo hesitante que governantes supostamente progressistas dão para impedir que a crise se espalhe é mais um passo que pavimenta o seu avanço. O fatalismo construído ao longo de décadas de recuos e concessões aos mercados e a seus dogmas, e o correspondente desarmamento organizativo que se seguiu, explicam a sobrevida de um hegemonia neoliberal em frangalhos.

O capitalismo não se auto-destrói. Assim como não existe autorregulação dos mercados não há auto-imolação do capital. Se as respostas não vierem da esquerda, a direita fará o serviço, como tem feito na periferia européia com mão-de-obra social-democrata.

Na crise de 29, quando a Bolsa de Nova Iorque derreteu e o desemprego atingiu um em cada quatro norte-americanos (em 1933 a taxa de desemprego foi de 24,9%), a relação de forças existente no mundo era bem distinta da atual.

Doze anos antes uma revolução operária havia instalado o primeiro governo revolucionário numa das maiores nações do planeta. A Alemanha atingida pela confluência entre a crise internacional e as reparações da Primeira Guerra, também viu eclodir um poderoso movimento socialista que quase tomou o poder. Seu fracasso levou à ascensão do nazismo.

Desempregados e veteranos da Primeira Guerra Mundial ergueram uma favela na principal avenida de Washington. Enfrentaram o Exército quando o governo tentou removê-los. Famílias famintas, desempregados rurais e urbanos entraram em conflito com as forças da ordem em vários outros pontos do país. Entre 1929 e 1933, o PIB dos EUA recuou 27%. Nove mil bancos quebraram. A taxa de desemprego só retornaria a um dígito com o esforço de mobilização provocado pela Segunda Guerra, em 1941. Foi um tempo de miséria e desmonte econômico. Mas simultaneamente havia um vigoroso movimento de organização social , com expansão do sindicalismo e das idéias socialistas no mundo.

Foi essa relação de forças que impôs uma solução heterodoxa para a crise de 29, que hoje assumiria ares de uma revolução. O New Deal estabeleceu uma dura regulação estatal dos mercados financeiros, abriu frentes de trabalho, multiplicou direitos operários, incentivou a sindicalização em massa, criou bônus de alimentos, financiamento de moradias e investimento público maciço em infra-estrutura. É a ausência dessa mesma correlação de forças e de estrutura organizativas correspondentes que fazem de Obama um simulacro risível do democrata Franklin Roosevelt que governou o país nos anos 30. Em contrapartida, é a existência desse contraponto organizativo que, segundo o perspicaz ponto de vista de Robert Kuttner, explica por que uma camareira do Sofitel de Nova Iorque não teve medo de denunciar o dirigente máximo do FMI, enquanto partidos e governantes servem obsequiosamente às imposições dos mercados financeiros. O jogo, portanto, é muito claro. Trata-se de saber se os partidos de esquerda pretendem jogá-lo ou perder por WO.

domingo, 5 de junho de 2011

A tempestade à vista e o Brasil

extraído do Blog Outras Palavras


Por Amir Khair

Ainda não se passaram três anos e já se delineiam duas sérias ameaças em nível global, que podem indicar um primeiro desdobramento da crise financeira originada nos Estados Unidos em 2008. É a situação crítica da questão fiscal dos Estados Unidos e Grécia. Os holofotes agora estão na Grécia, mas não levará tempo para se dirigirem aos EUA.
Vale recordar. Na primeira tentativa de sair do buraco, a Grécia acertou com o FMI que sua economia deveria encolher 4% em 2010, 2,6% em 2011 e o desemprego, de 9,4% em 2009, subiria para 14,8% em 2012. Esse o custo da redução do déficit fiscal de 13,6% do PIB em 2009, para 8,1% em 2010 e 6,5% em 2012. Mesmo assim, sua dívida se estabilizaria em 150% do PIB! Mas em 2010, em vez de conseguir a meta de déficit de 8,1%, obteve 10,5%, o que acendeu a luz vermelha.
Os holofotes agora estão na questão fiscal da Grécia, que precisará de um novo empréstimo em 2012. Com um crescimento mais baixo que o esperado, a tendência é o agravamento fiscal e a necessidade de mais empréstimos que, se vierem, trarão sérias dificuldades de satisfazer as condições impostas pelo FMI, com impacto social crescente e sério risco político ao governo.
A aposta dos “salvadores” (Banco Central Europeu – BCE, países da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional – FMI) ao concederem o primeiro socorro era de que uma profunda restrição fiscal, com rebaixamento de salários, demissões no setor público e freada no crescimento econômico, seria capaz de gerar os excedentes para honrar as parcelas dos empréstimos, que tiveram prazos mais alongados.
Esse aperto fiscal deveria ser imposto à população e as reações foram imediatas com paralisações e manifestações de massa, que na ocasião poderiam inviabilizar as negociações em curso. Mas o governo grego conseguiu vencer o primeiro round e aprovou as duras exigências dos financiadores, com importante condição: a dívida teria que ser integralmente paga, sem nenhum prejuízo aos credores.
Esse socorro financeiro implica em dois problemas fiscais, de solução quase impossível, pois crescem as despesas com o serviço da dívida pelo forte aumento do endividamento e cai a arrecadação pela redução da atividade econômica e pelo aumento da inadimplência dos contribuintes – ou seja, forma-se um “sanduíche” fiscal.
Os credores, no entanto, partiram da premissa de que a redução das despesas públicas seria suficiente para superar esses dois problemas. Não foi o que aconteceu e nem acontecerá. Assim, seria necessário reduzir o valor a ser pago no serviço da dívida, ou seja, seu deságio, com perda para os credores.
Mas o deságio não bastaria para solucionar o problema, pois os desequilíbrios macroeconômicos já existentes tornam necessários outros esforços para viabilizar o equilíbrio de suas contas internas e externas. Atualmente ocorre déficit na balança comercial de 4% do PIB, maior déficit comercial entre os países da região do euro. Se esse déficit persistir, a Grécia terá de captar o volume total em instituições de crédito estrangeiras, mesmo se os déficits orçamentários pós-inadimplência puderem ser financiados com captações domésticas.
A simples ameaça do deságio na Grécia precipitou a elevação dos riscos das dívidas de Portugal e Espanha. Portugal foi o primeiro a pedir socorro e já está seguindo o mesmo caminho grego. Tomou em maio recursos do FMI e da União Europeia de US$ 110 bilhões, que representam 47% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. O último pacote de auxílio do FMI ao Brasil, em 1998 foi de US$ 40 bilhões ou 4,7% do PIB. Assim, esse socorro a Portugal foi, em termos de tamanho de sua economia, 10 vezes maior do que o nosso.
Para situar a gravidade do problema que ronda a Europa, o pacote da Grécia de US$ 156 bilhões foi também de 47% do PIB e o da Irlanda (US$ 120 bilhões), 52,9% do PIB, segundo matéria publicada em O Estado de São Paulo (22/5). Esses socorros foram também sem deságio nas dívidas e será apenas questão de tempo para evidenciar a falta de visão dos “salvadores” e o agravamento da inevitável deterioração fiscal nesses países.
Não tem como escapar do deságio das dívidas. Esse deságio, por sua vez, poderá trazer novos desdobramentos na rede financeira europeia já fragilizada pela crise iniciada nos Estados Unidos com as hipotecas de alto risco (subprime) e por a nu os títulos podres em posse do BCE ao socorrer o sistema bancário da Irlanda, Grécia, Espanha entre outros países.
A nova tentativa de socorro à Grécia continuará tentando preservar os credores, alongando mais a dívida, sem reestruturá-la, com nova injeção de empréstimos, e o calote será inevitável e maior mais a frente. É uma exigência do BCE para tentar empurrar com a barriga os títulos podres em seu poder cujo montante é desconhecido.
O mesmo poderá ocorrer com Portugal, mais à frente à Espanha e, em seguida a Itália, países de maior expressão econômica na zona do euro. Poderá ser essa a sequência dos PIIGS [Portugal, Irlanda, Itália, Grécia, Espanha]. É claro que isso atingirá o sistema bancário das economias mais sólidas como França e Alemanha, agravando a crise europeia com repercussões em outros países fora da área. Como existe forte relação entre os sistemas financeiros de Europa e Estados Unidos, esse país certamente será afetado.
Em 16/5, os Estados Unidos atingiram o teto de US$ 14,294 trilhões da dívida pública e o Departamento do Tesouro planeja anunciar que vai parar de emitir e reinvestir títulos do governo em certos fundos de pensão públicos, parte de uma série de medidas para adiar a moratória até 2/8. Essas medidas do Tesouro visam ganhar tempo para a Casa Branca e líderes do Congresso chegarem a um acordo de redução do déficit, para atingir número suficiente de congressistas a votar o aumento da dívida.
A disputa política entre republicanos e democratas pode fornecer o combustível necessário para começar a por em dúvida a capacidade de o país honrar o pagamento aos credores, que estão espalhados por todo o mundo, especialmente entre países que acumularam fortes reservas ligadas ao dólar, como China, Japão, Alemanha e o Brasil. Para agravar esse quadro o déficit fiscal previsto ao final deste ano pode atingir US$ 1,7 trilhões ou 11% do Produto Nacional Bruto (PNB).
A tentativa de ativar a economia via elevação da liquidez é outro motivo de preocupação. De 2004 a 2008, a base monetária girava em torno de US$ 0,8 trilhão e a disparada sem cessar a partir de 2009 a elevou para US$ 2,4 trilhões. Apesar disso, os empréstimos bancários ficaram estabilizados desde o final de 2008 em US$ 9 trilhões, evidenciando o deslocamento dessa elevação da liquidez para fora dos EUA.
É possível que as agências de classificação de risco, que dormiram no ponto na crise de 2008/2009, não tenham o mesmo comportamento agora. Alguns sinais já apontam nessa direção. O primeiro foi dado pela Standard & Poor’s que rebaixou de “estável” para “negativa” a perspectiva de rating de crédito soberano de longo prazo dos Estados Unidos. Com isso, sinalizou que poderá piorar a nota da dívida americana. As razões apontadas para a decisão foram o persistente déficit orçamentário e o elevado endividamento do país.
De acordo com a agência, mesmo após dois anos após a eclosão da crise financeira que abalou o mercado de hipotecas dos EUA, o governo do presidente Barack Obama dá sinais de que não chegou num acordo sobre como reverter a deterioração fiscal por que passa o país atualmente, nem aponta soluções para as pressões fiscais de longo prazo.
O dólar já vem de longo processo de perda de valor perante outras moedas e commodities, e isso expressa a doença que se abate lentamente sobre a economia norte-americana. As análises sobre as perspectivas deste país oscilam a cada dia ao sabor de dados sobre pedidos de desemprego, construção de novas moradias, produção industrial, inflação, etc. Fato é que a reação aos fortes estímulos dados desde 2008 produziram efeitos pífios e os déficits fiscais passaram de 3% do PNB em 2008 e poderão atingir 11% neste ano. A dívida sobe de forma ameaçadora, indicando claros riscos em seu pagamento.
Para agravar esse quadro, a elevação dos preços do petróleo e outras commodities subtraem o poder aquisitivo dos americanos, com reflexos negativos sobre o consumo, que representa 70% do PIB do país. Isso afeta o crescimento econômico, a arrecadação e eleva o déficit fiscal.
Parecem esgotados os instrumentos monetários para tirar o país da crise. A forte injeção de dólares feita pelo Fed (banco central americano) e os juros negativos não conseguiram estimular o consumo. É incerto se terminará em junho a escalada da injeção de US$ 600 bilhões. Essa elevação da liquidez já dá sinais de problemas com a inflação, que começam a aparecer no front de preocupações do Fed. E nada mais potente para retirar o poder aquisitivo do norte-americano que a inflação.
O caminho que seria possível para romper com esse agravamento é a ampliação das exportações e contenção das importações, para gerar empregos suficientes para tirar da letargia o mercado interno. Mas isso não vem ocorrendo no nível necessário, pois a disputa no mercado internacional cresceu fortemente, como consequência da crise de 2008.
Face a esse quadro, o melhor para o Brasil é apostar as fichas da saúde econômica e financeira naquilo em que somos bons: alto potencial de mercado interno inexplorado. Assim, é bom repensar as políticas do pé no freio, que podem fragilizar o País aos trancos que poderão vir de fora.