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domingo, 28 de agosto de 2011

Crise: turma de FHC culpa os gastos sociais

por Fernando Brito



Ontem, a gente postou aqui uma matéria sobre o espanto revelado pelo professor Joseph Stiglitz com o fato de autores de políticas econômicas fracassarem continuarem por aí, pontificando sua “genialidade” e, como aves de agouro, prevendo uma catástrofe econômica que só poderia ser evitada com sacrifícios humanos. Exatamente por isso, chamamos essa turma de “adoradores da recessão”
Pois não é que ontem mesmo houve uma reunião deles no Instituto FHC, com presença do próprio, houve um encontro desta turma da “roda presa”, que invocou o espírito da crise europeia para dizer que as políticas sociais foram as responsáveis pela crise de endividamento que assola o continente.
Está lá no Estadão:
A crise internacional evidenciou o fato de que a política de bem estar social, adotada pelos países europeus e almejada pelo Brasil, chegou ao seu limite. O ônus de oferecer serviços de educação, saúde, transporte e segurança apostando em um Estado capaz de socializar perdas e acomodar conquistas é o elevado nível de endividamento público”.
Socialização de perdas foi o que os governos dos países desenvolvidos fizeram ao emitir dívida para socorrer o sistema financeiro em 2008. Lá, na Europa, assim que eclodiu a crise, os governos colocaram nada menos que um trilhão de Euros à disposição do “bem-estar” do sistema bancário. A Espanha, que está agora com a corda no pescoço, só ela, disponibilizou 100 bilhões de Euros.
A cara de pau é tanta que criticam a política econômica brasileira por fazer, em escala muito menor, coisas que eles faziam sem pudor ou meias-medidas.
Primeiro, dizem que políticas sociais não permitem cortes orçamentários para reduzir a dívida pública. Fernando Henrique e esta turma chegaram ao governo com a dívida pública abaixo de 20% do PIB e, em oito anos, mesmo vendendo as estatais, conseguiram elevá-la para 58% do PIB. Hoje, com todas as políticas sociais “gastadeiras” que criticam, está abaixo dos 40% e, como todos viram ontem, a nota de risco sobre essa dívida é inclusive reduzida pelas agências internacionais.
A segunda crítica é que essas políticas não permitem que baixemos os juros reais de nossa economia. De fato, ninguém duvida que os juros estejam mais alto do que seria bom termos para produzirmos mais, mas vinda de onde vem, a crítica chega a soar irônica. Porque os juros durante todo o período em que comandaram a economia, foram muito mais altos que com Lula e com Dilma. Muito? Não, estratosfericamente mais altos, chegando até serem quatro vezes maiores que os mais altos já pagos entre 2003 e hoje. Quem quiser conferir, pode ver aqui uma tabela dos juros reais, nominais e inflação nos dois períodos.
Mas os mortos-vivos, que tiveram a faca e o queijo na mão para usar sua genialidade durante uma década, não conseguem ver sua imagem no espelho. E sua imagem está refletida com exatidão no gráfico aí de cima, que mostra que conduziram este país a passos de cágado, numa velocidade em que os nossos urgentes problemas sociais vão se resolver, talvez, lá pelo ano de 5820.
Claro, se essa gente que crê na genialidade divina do “mercado” não acabar com o mundo antes.


domingo, 3 de julho de 2011

O Brasil e a crise que está por vir


Por raquel_
Da CartaCapital
O pior da crise está por vir
Antonio Luiz M. C. Costa30 de junho de 2011 

O mundo vive um clima mais perigoso que o de 2008, mas faz de conta que nada vai acontecer. Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Angelos Tzortzinis/AFP

Deixemos de lado, ao menos por um momento, as controvérsias sobre se a taxa de inflação deste ano vai ficar mais próxima de 6% ou de 6,5%, sobre se o PIB vai chegar a 4%, se as metas de inflação para 2012 e 2013 são adequadas ou não, se a próxima reunião do Copom vai aumentar o juro básico em 0,25% ou 0,5%. Tudo isso é um pouco como discutir se convém trocar a geladeira velha ou qual o quarto de hotel a ser reservado para as férias do ano que vem, enquanto se ouvem soar as sirenes de alerta.
A questão é: como deveríamos nos preparar para o tsunami financeiro que está a caminho?
Em 2008, o Brasil saiu quase incólume da crise financeira que pôs em pânico todo o Hemisfério Norte e também os países mais dependentes das exportações para os desenvolvidos, como o México. Quase, pois seu desempenho econômico no ano seguinte, mesmo sendo o sexto melhor do G-20, registrou ligeira queda (-0,2%) e sabe-se hoje como o Banco do Brasil foi forçado a socorrer grandes empresas como Sadia e Aracruz e pequenos e médios bancos que tiveram enormes perdas com derivativos (inclusive o Votorantim, que acabou absorvido). Um dos maiores grupos financeiros, o Unibanco, foi forçado a abrir mão da independência para o Itaú.
É praticamente certo que em um futuro não determinado, mas bem próximo – como no caso de um terremoto, não é possível precisar se daqui a três anos, ou já nos próximos meses –, o mundo enfrentará uma crise de proporções semelhantes ou maiores, tendo os grandes bancos europeus como provável epicentro, ainda que os EUA e o Japão também inspirem muitas preocupações. O tamanho exato da encrenca importa menos que o fato de que muitos dos principais países desenvolvidos exauriram sua capacidade de endividamento ao absorver o golpe de 2008. Desta vez, pode não haver rede de segurança capaz de deter a propagação de um colapso financeiro e amenizar a recessão. Para não falar dos limites da paciência dos eleitores.
A Grécia, supõe-se que todos saibam, é apenas a ponta do iceberg. Em 18 de junho, o presidente do Eurogrupo (conselho dos ministros da Fazenda da Zona do Euro), o luxemburguês Jean-Claude- Juncker, foi claro: “Brincamos com fogo. A falência (da Grécia) pode contaminar Portugal e a Irlanda e, por causa do endividamento, atingir a Bélgica e a Itália antes mesmo da Espanha”.
Mesmo depois de Giorgios Papandreou conseguir o voto de confiança do Parlamento para o novo ministério e o novo acordo e pacote de “austeridade” da troika UE-FMI-BCE, as opiniões não mudaram. “Nos próximos três anos, veremos diferentes economias enfrentarem diferentes problemas. Para as europeias, especialmente a Grécia, será pela moratória”, disse Mohammed El-Erian, presidente da Pimco-, maior operadora de títulos do mundo. “Se a insanidade é fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes, o acordo com a Grécia é insano”, escreveu Martin Wolf no Financial Times. E ao menos no caso da Irlanda, a situação piora até mais rápido.
“A maioria dos economistas não vê alternativa a algum tipo de moratória”, confirma Mike Wickens, consultor do FMI. “Calote ou reescalonamento, precisam fazer isso de algum jeito.” Para a Grécia, não precisaria ser o fim do mundo, observa o economista britânico: Argentina, Rússia e México renegociaram suas dívidas e isso os ajudou no longo prazo. O próprio Reino Unido terminou a Segunda Guerra Mundial com uma dívida de mais de 180% do PIB, que chegou a 238% entre 1946 e 1947. Renegociou com os EUA para estender seu prazo de pagamento em 30 anos e, na verdade, só acabou de pagá-la em janeiro de 2007. Mas os financistas da Europa e do mundo não estão preocupados com os gregos, e sim com os seus credores.
A ordem de grandeza da dívida grega, 340 bilhões de euros (145% do PIB), é quase a da falência do Lehman Brothers, que ao quebrar devia 613 bilhões de dólares ou 410 bilhões de euros. Mas é apenas uma fração do problema em potencial. Em estimativa de 2010, os bancos da França detinham 575 bilhões de euros em dívidas dos PIIGS, os da Alemanha 385 bilhões, os do Reino Unido 174 bilhões e os dos EUA 88 bilhões. O total dessas dívidas é de 4,5 trilhões, nas mãos de bancos e outras instituições, europeias ou não. E hoje, tempos de PIIGS do B, é preciso somar ainda a Bélgica, que deve cerca de 1 trilhão de euros. Ao todo, 5,5 trilhões, perto de 65% do PIB da Zona do Euro.
É a dispersão dos credores que inviabiliza uma concordata organizada e leva a troika a teimar com planos inviáveis. Segundo o ministro da Fazenda alemão, Wolfgang Schäuble, o sonho é convencer os maiores credores da Grécia (e, eventualmente, de outros devedores) a trocar “voluntariamente” seus títulos por outros de vencimento mais longo e menor rendimento, aceitando o inevitável prejuízo contábil. Na vida real, a protelação serve, no máximo, para ganhar tempo para que os bancos privados se livrem de parte de seus títulos, se encontrarem otários, quer dizer, compradores (provavelmente, o setor público), ou ajeitem sua contabilidade dando baixa em seus títulos.
Uma renegociação poderia ter funcionado até os anos 1970, quando grande parte das dívidas externas era contratada com governos ou grandes bancos fortemente regulamentados. Hoje, os títulos ao portador e derivativos neles baseados estão nas mãos de bancos grandes e pequenos muito desregulamentados, fundos de pensão, fundos especulativos, empresas industriais e pessoas físicas. É impossível fazê-los concordar – muitos deles não admitem sofrer um prejuízo e outros especulam de maneira a ter muito a ganhar com uma moratória ou mesmo com o colapso do euro.
Uma renovação não “voluntária” fará as agências de classificação declararem a dívida em moratória. Será legalmente impossível ao BCE (e outras instituições análogas no mundo) aceitar seus títulos como colaterais, ou seja, garantias de empréstimos do Banco Central aos bancos privados. Quando vier uma corrida bancária, não poderão ser socorridos pelos bancos centrais dentro das normas atuais, o que pode gerar falências em cascata e uma reação em cadeia maior que em 2008. E é ilusão, claro, pensar que em tempos de globalização o problema pode ser confinado à Zona do Euro.
Nos Estados Unidos e no Reino Unido, o setor público também está sobrecarregado de dívidas, assumidas ao socorrer bancos e grandes indústrias privadas, distribuir pacotes de estímulos ou apenas manter os serviços sociais e a máquina pública em funcionamento diante da queda da arrecadação na crise de 2008. E, ao contrário do que esperavam seus governos, suas economias não tiveram uma recuperação convincente. Ao contrário, parecem voltar a se deteriorar depois de uma breve retomada que não chegou a reduzir substancialmente o desemprego.
O dilema britânico, apesar de grande, não é dos mais urgentes. O crescimento é baixo, o endividamento é alto (60% do PIB) e continua a subir (para 100% em 2012, estima-se) e o governo conservador está descobrindo que não será tão fácil quanto esperava forçar goela abaixo dos eleitores os cortes na educação, saúde e assistência social que pretende impor, mas ainda não está muito desgastado e a oposição tem sido bem cordata.
Os Estados Unidos são outra história. O PIB cresce, mas em ritmo muito inferior ao costumeiro na saída de uma recessão e muito abaixo dos cerca de 3% ao ano necessários para repor empregos. A dívida líquida está em 62% do PIB, caminhando para 69% em 2020 e os indicadores econômicos de maio foram ruins, apontando queda do número de empregos e dos preços dos imóveis. Mas a questão decisiva não é econométrica.
Em outros tempos, dava-se como axiomático que os títulos de dívida dos EUA, ou T-Bonds, eram tão seguros quanto barras de ouro, se não mais. Devedor na própria moeda que emite, na pior das hipóteses, o Tio Sam sempre poderia imprimir dólares para pagá-los. Com algum risco de inflacioná-los, mas até o preço do ouro sofre flutuações. Agora já não é bem assim: o risco de moratória dos EUA começa a ser pensado e medido e não parece tão baixo assim aos especuladores. No curto prazo, maior que o do Brasil, para ser exato: em 15 de junho, os CDS (derivativos de garantia contra moratória) dos EUA com prazo de um ano eram negociados em 49,8 pontos-base, ante 48 da Itália, 39 do Brasil, 38 do Japão, 19 do Reino Unido e 5 da Suécia.
Ao site Market Watch, Ethan Harris, economista do Bank of America Merrill Lynch, acha que uma moratória temporária dos T-Bonds não seria o pior dos cenários. Embora preferisse um ajuste moderado e um acordo para lidar estruturalmente com o déficit a longo prazo, Harris acha que o calote é preferível aos cortes selvagens de gastos públicos que a oposição tenta impor ao negar autorização para elevar o teto da dívida pública, impasse que tem prazo até 2 de agosto para ser superado.
Se na Europa é a pulverização das dívidas que inviabiliza a negociação, nos EUA é a política: os republicanos do Tea Party veem na crise apenas uma oportunidade de abalar um governo fragilizado e abrir caminho para uma pauta radical de abolição do bem-estar social. O resultado é semelhante: o risco de moratória não como uma reestruturação planejada, mas como um calote desorganizado, criando caos nos mercados cambiais e financeiros. A alternativa, suspender os serviços públicos para pagar a dívida, seria ainda pior para a economia dos EUA e do mundo. E se Wall Street precisar de novo socorro, não encontrará um governo em condições de salvá-la da embrulhada europeia ou de suas próprias mancadas.
O Japão é, hoje, a mais endividada das grandes nações (dívida bruta de 227% do PIB e líquida de 122%). É resultado menos da crise internacional de 2008 do que da crise nacional iniciada em 1991, da qual nunca conseguiu sair completamente. O quadro foi, porém, subitamente piorado pelo desastre natural de março deste ano. Tanto pelos inevitáveis danos diretos quanto pelos secundários, resultado de se ter subestimado os riscos de terremotos e tsunamis para as usinas nucleares, o governo japonês viu-se sobrecarregado por mais gastos ao mesmo tempo que o racionamento de energia derruba produção e exportações. Como a dívida japonesa é quase toda interna e seus juros são quase nulos, não há risco aparente de moratória, mas essa situação contribui para a estagnação da economia global e adia para um futuro ainda mais distante as esperanças de recuperação da economia japonesa.
Quanto à China, esta atravessa a fase na qual o crescimento quantitativo precisa ser transformado em qualitativo, com menos ênfase em exportações, investimentos e crescimento do PIB (deve cair de 10% ao ano para 7%, segundo os planos oficiais) e mais em consumo, desenvolvimento do mercado interno, distribuição de renda e bem-estar social. Por maiores que sejam os poderes do Estado para administrar a transição, acidentes de percurso podem acontecer. Empresas e investimentos planejados para o cenário antigo podem ser inviabilizados e a expansão do consumo pode resultar em uma bolha de crédito tão perigosa quanto a do Japão nos anos 1980 ou dos EUA nos 2000. Parece ser um problema para a próxima década, mas pode ser antecipado se o sistema político chinês mostrar fragilidades imprevistas.
Quando tantas coisas podem dar terrivelmente errado, algumas com maior, outras com menor probabilidade, é quase certo que uma delas vai acontecer. Não é tempo de business as usual: a prioridade não deveria ser discutir ajustes de rotina, minúcias das projeções de curto e médio prazo ou maneiras de obter melhores notas das agências de classificação de risco, mas quais medidas poderão ser tomadas quando a catástrofe vier.
Se grandes bancos europeus ou norte-americanos quebrarem de repente e o crédito sumir, o governo brasileiro tem como evitar a propagação da desconfiança para os bancos e empresas nacionais? Se os grupos financeiros internacionais tiverem, de repente, de sacar aplicações nos países periféricos para fazer frente à crise de confiança interna, o Brasil terá instrumentos para evitar o caos cambial? As repostas a essas questões, mais que a exata dimensão dos gastos públicos ou os preparativos para a Copa do Mundo, é que vão definir o fracasso ou sucesso do governo e do próprio País até 2014.

domingo, 26 de junho de 2011

A Europa dos capitais e do poder

por Eneas de Souza*, publicado no blog Sul21, de 24/06/11

A Europa, diz Hobsbawm, não vai se desintegrar. Talvez seja verdade. No entanto, vai sofrer como um ser que se debate para fugir do naufrágio e do afogamento. Vivemos uma chuva torrencial sobre a Europa do capital financeiro. Anteontem, o parlamento grego deu um voto de confiança ao primeiro ministro Papandreou e, no mesmo dia, tomou posse Teixeira Páscoaes no cargo de primeiro ministro da nação portuguesa. A crise se mexe. Os dois países estão entre o desastroso e o catastrófico, como resultado de terem escutado as sereias de uma ideologia e efetuado uma prática econômica vendida e orientada pelo neoliberalismo. É preciso perguntar: qual foi a estratégia que os europeus compraram para dar no que deu? A resposta é muito simples: o que eles compraram foi a estratégia básica das finanças, das finanças americanas e européias e que consistia em chamar o expandir da financeirização da Europa de modernização. Esse filme nós já vimos no Brasil, sob a presidência do sempre lembrado Fernando Henrique Cardoso, o popular FHC. Só que na Europa eles compraram uma idéia um tanto mais bonita, mais ornamentada, compraram a idéia de uma Europa da unidade, uma Europa do desenvolvimento, uma Europa da cultura e do poder.
COMO FOI A MODERNIZAÇÃO DAS FINANÇAS
1) Os capitais tinham um projeto e uma manobra inteligente. Era preciso fazer dos Estados Unidos e da Europa um jardim mais florido de novas mercadorias e de muitos títulos financeiros, que rendem dinheiro e maravilhas materiais. No continente europeu, se afigurava fazer um vasto mercado tanto quanto possível único. O sonho dos Estados Unidos da Europa. E não se pode esquecer que essa decisão estava situada dentro do processo de mundialização da economia, embasada em duas premissas: a expansão dos bancos, principalmente americanos, num mercado mundial financeiro, e na estrutura mundial da produção das grandes corporações. Essas duas características permitiram que o capital não só se tornasse internacionalizado, mas mundializado, o que consagrava um avanço na busca de sua valorização. E no barco do sonho da Europa dos capitais, com as finanças saudadas como ‘a maioral’, veio outro sonho, que galvanizou grande parte da população: a união da cultura. A Europa sonhou retomar o primeiro lugar do mundo. Trazer o que os Estados Unidos não tinham: este charme que atravessou a Idade Média, a Idade Moderna e chegou até a segunda guerra mundial. Hoje, os Estados Unidos, se a Europa desse certo, seriam apenas um intervalo no sucesso europeu. E essa idéia seria posta na vitrine de uma ampla renovação do continente. Isso era um sonho profundo dos europeus, incluindo os ingleses, só que esses sempre foram como uma noiva, cobiçada e em dúvida, tinha a mão para um namorado, os Estados Unidos, e os olhos para outro, o continente.
2) Mas o desejo da Europa dos capitais tinha outro componente. As finanças sonhavam longe, mas com restrição. Ambicionavam uma violenta mobilidade do fator capital – olhos gordos para ganhos imensos – e pensavam numa contenção da mobilidade do fator trabalho. Nessa, o ardil dos capitais era mais refinado e cruel, botava fogo na competição entre os trabalhadores, pois os emigrantes árabes, muçulmanos, asiáticos faziam presença para baixar o custo da mão de obra européia. Ou seja, houve um movimento de aceleração do poder de realização do capital. Para tal houve a combinação dos Estados Unidos e da Europa, algo que vinha na “contra-revolução neoliberal” liderada pelo cow-boy Reagan e por Lady Thatcher, a dama de ferro. Combinação nada romântica, tétrica, que, expandindo-se sob o guia americano para novas e novas áreas, adquiriu uma hegemonia decisiva e construiu o capitalismo dos últimos 30 anos. E com a mágica de que a História tinha terminado – na palavra do inolvidável Fukuyama – aconteceu a instalação do predomínio da órbita financeira, pintando, talvez à la Jacson Pollock, um novo colorido do capitalismo do pós-guerra, brindado no fim do século XX com a liquidação do outro sonho, o do comunismo soviético. A Europa dos capitais pegou, então, carona no capitalismo americano.
A EUROPA DAS FINANÇAS
1) Então, as finanças, espertamente, planejaram essa modernização, jogando na Europa o germe de uma cultura renovada. Todavia, no campo econômico o que aconteceu foi o seguinte: em primeiro lugar, os capitais de origem nacional, se permitiram ampliar o espaço da sua concorrência, criando um mercado europeu o mais amplo possível. Com isso, romperam a linha restrita das nações, mas sem o guarda chuva providencial, um Estado europeu. O que significa um projeto de avanço dos capitais. De fato, o que aconteceu foi um aumento do espaço para a competição entre as empresas produtivas e as instituições em geral. Era um passo adiante, não necessariamente para todos, porém certamente para aqueles da Inglaterra, da Alemanha e da França; a Espanha e a Itália entraram no baile a reboque, de smoking emprestado. E isso é fundamental para entender a crise européia. Esse avanço do capital não traz um Estado para a coordenação política e econômica, porque a essência da questão é a autonomia das finanças em relação aos controles públicos. E o espaço da disputa tornou-se uma arena sem regulação.
2) Por isso, os ingleses, querendo manter sua independência e sua privilegiada convivência com os Estados Unidos, aproveitaram o salão de festas, mas não participavam da comunidade. Portanto, a astúcia dos capitais foi manter a flexibilidade de sua ação, de um lado, garantindo a liberdade de expansão no terreno europeu (e também mundial) e, de outro lado, se não tinham a proteção de um Estado europeu, mantinham, para cada um dos capitais, o apoio de seu Estado Nacional. O capital é um bicho frágil, sempre um arbusto que está em busca de ser árvore, e que depende do Estado, como se pode ver neste atual momento. O Estado alemão, o Estado francês, etc., estão tentando dar guarida ao seu capital bancário, ameaçado de insolvência nos mares gregos e na borda de Europa, nas terras portuguesas. É assim também agora, como, aliás, foi assim igualmente na crise de 2007/08. Daí o aforismo: o Estado que, no momento da expansão é posto de lado, é o mesmo que, na hora da crise, salva.
3) A Europa das finanças armou uma institucionalidade à sua feição. Como é que foi o esquema? Após eliminarem o estorvo de um Estado para a Europa, o objetivo era dar impulso a uma dinâmica que assegurasse o processo de predomínio da valorização do financeiro, estabelecendo uma moeda unitária – o euro – e oferecendo a possibilidade de fixar uma taxa de juros básica no nível europeu. Algo muito confortável às finanças da velha Europa. E o problema importante, para a competição das finanças européias, era sempre ter um juro acima dos Estados Unidos. A Europa para os capitais europeus. E aí surgiu o Banco Central Europeu, que, além de garantir o controle da moeda, teve uma tarefa notoriamente decisiva: fixar o juro adequado para o dinamismo do continente. Dinamismo das finanças européias, é claro, antes de tudo. E nessa base, tivemos a finura e a fraqueza dessa economia. Para começar, uma arma poderosa, uma moeda e a uniformização da taxa básica de juros. Para completar, o Tesouro de cada nação sustentava a função de reserva de valor do padrão monetário e assegurava o endividamento dos Estados individualmente. Ou seja, a moeda era européia, mas os títulos públicos de cada país. Uma bomba que, na crise financeira do pós 2007/2008, caiu no colo de Portugal, da Grécia, da Irlanda
4) Ora, não havendo Estado europeu, as dívidas nacionais e as finanças públicas dos Estados ficavam sob controle nacional, fora da alçada direta do controle da Europa, porque a Europa era e é uma união sem cabeça, não tinha e não tem Estado. É verdade que a União Européia fixou um déficit fiscal de 3% do PIB para cada país, de tal maneira que dava a ilusão de uma vigilância mínima. Na crise de 2007/08 já se viu a carência da falta de um Estado único. E agora, no prosseguimento, as crises que estalaram, puseram em cheque todo o continente e, por extensão, até os Estados Unidos. Daí a preocupação de Thymoty Geithner com a evolução do drama. Todo o engenho do roteirista é evitar que se chegue às cenas do clímax. Assim, o crescimento da Europa dos capitais está detonando o avanço da Europa das nações. Os Estados vão sempre puxados pela locomotiva do capital, para o céu ou para o inferno, já que o Capital tem a alma geminada, é servo de Deus e do Diabo. E agora está com o demônio no corpo!
A CRISE ENROLA ESTADOS E BANCOS NA MESMA JOGADA
Então, a perfídia. A orgia financeira foi intensa, porque a especulação financeira que trouxe a crise de 2007/08 provocou a necessidade de, em primeiro lugar, salvar os bancos e, em segundo, salvar alguns Estados com dívidas hiperbólicas. Isso quer dizer que, para preservar os bancos, os Estados tiveram que pôr os seus recursos e, todavia, Estados menores, muitos, tiveram que se endividar com bancos mais poderosos de outros países. Mas a cadeia não pára aí. Os bancos dos Estados maiores, já envolvidos nas absurdas curvas das rótulas financeiras, com quantidade de títulos podres nos seus balanços, acorriam com olho gordo, mas com a proteção dos Estados maiores, para aportar dinheiro a entidades financeiras desses Estados menores. Só que título podre é viral, força a contaminação de tudo e de todos. Daí há algo de podre na Dinamarca. Oh! Senhor, os anjos passaram de anjos do bem para anjos de cara suja. E tudo indica que se encaminham para morrer abraçados, bancos e Estados menores, bancos e Estados maiores. O circuito financeiro enlaçando Estados e capitais deixou de ser virtuoso, mergulhou na classe do vicioso. E sempre o mesmo equívoco: quando a economia cresce, tudo é possível de dar certo. Mas quando a crise desata o seu odor, ela afeta, abala, tortura, desampara e se esparrama por toda parte. E, no sistema capitalista, o centro é a concorrência dos Estados e a concorrência dos capitais. Então, nesse momento, estamos num processo de feroz adversidade de todos contra todos, capitais e Estados. O terror chama-se “salve-se quem puder”. E o pior é que se fugirem o bicho pega, se ficarem o bicho come. Nhact!
AS DIMENSÕES DA CRISE
1) Mas a crise dos capitais e dos Estados mostra um nível da questão. Mas há outro, a realidade da mão de obra. E aí a coisa está explodindo, feia, abrupta, uma faca cortando a vida, os salários, os direitos, os serviços sociais dos trabalhadores e dos desempregados. Tão querendo pô-los como o bode expiatório da questão. “Toma que a crise é tua”, essa crise deformada e retorcida. Pois é o movimento que os capitais e os governos solidários com esses, impõe: quem paga a conta é quem tem menos. Ou seja, a financeirização é um revolver engatilhado, um 38 na cara da população. Vejam-se os movimentos de rua na Grécia, na Itália, em Portugal, na Espanha, na França, etc. Uma inquietação sacode a Europa. Até agora é um tapa, daqui a pouco será uma surra, mais adiante o 38 vai disparar. Porque uma crise financeira e uma crise fiscal conjugadas fazem desabar e desqualificam tanto capitais como Estados, mas demolem e destroem as perspectivas dos trabalhadores.
2) Está hoje em marcha, na Europa, um processo de desestruturação da economia. E, não há como negar, no atual jogo de forças, não se vê uma saída favorável à produção e ao emprego para que se possa aumentar a demanda visando criar lucros, e lucros chamando mais investimentos e mais empregos para proporcionar receitas para os Estados pagarem as suas dívidas. E com isso propor uma ascensão da economia. Essa não é, definitivamente, a solução dos credores, ou pagamentos imediatos ou saque dos Estados à beira da bancarrota. Daí a busca de emplacar uma política de eliminações de gastos, de redução de salários, de eliminação das aposentadorias e de aumento de impostos à população, de venda de empresas públicas e de paralisia das atividades econômicas. Esse conjunto de medidas, na verdade, não retoma a atividade econômica, não é ajuda, é assalto. E depredação dos concorrentes, pois essas medidas levam a eliminação de capitais mais fracos. Trata-se de uma concorrência predadora. E leva a diminuição de poder de Estados. É seguramente um assalto ao patrimônio e aos recursos de um país e, consequentemente, mina e ameaça o poder público de outro Estado. Ou seja, a hierarquia das forças na Europa se modificaria em detrimento de Estados e nações, de capitais e de trabalhadores e da população de países como Portugal, Grécia, Irlanda, Islândia, Espanha, pelo menos. E mais, dependendo do poder dentro desses países, os perdedores ainda poderiam ceder muito mais. Dessa forma, olhando além das aparências, a gente vê que o neoliberalismo tem mostrado o que é: uma baita distribuição de riqueza e de poder para cima. Força-se o endividamento para tornar as empresas e os Estados prisioneiros econômicos e políticos.
3) Estamos, então, às vésperas de uma metamorfose das posições dos atores. Isto quer dizer que as crises são sempre um processo de concentração e centralização de capital e de concentração e centralização de poder dos Estados mais fortes. Enquanto isso ocorre, a população tenta reagir, tenta por nas ruas e nas praças a reclamação e o poder de aglutinação das massas. Tudo é muito difícil porque a oposição ao capital não tem nem uma ideologia que aponte para uma utopia à vista, nem para novas idéias que aglutinem o movimento de ocupação de um espaço político de poder. Estão todos contra as medidas tomadas, mas não tem uma ação forte e contundente, nem unitária e agressiva. E ser somente contra e não ter estratégia talvez não leve muito longe. Mesmo porque, o que a gente está vendo é que o desgosto da população está empurrando a política para a direita na maioria dos Estados. Todavia, só estar em movimento já modifica o quadro, principalmente porque a negação é o ponto de partida de uma resistência, de uma modificação, da criação de idéias, sentimentos e outras propostas para a condução do problema. Mas a lógica da transformação não derrotou a lógica da destruição.

domingo, 10 de abril de 2011

Alternativas para a crise portuguesa

extraído do blog Outras Palavras, de 08/04/11



Por Boaventura de Sousa Santos


Começo por descrever os próximos passos do aprofundamento da crise, para de seguida propor uma estratégia de saída. O que neste momento está se tramando como solução para a crise que o país atravessa não fará mais que aprofundá-la. Eis o itinerário. A intervenção do FMI começará com declarações solenes de que a situação é muito mais grave do que se tem dito (o ventríloquo pode ser o líder do PSD, se ganhar as eleições). As medidas impostas serão a privatização do que resta do setor empresarial e financeiro do Estado, a máxima precarização do trabalho, o corte nos serviços e subsídios públicos. Tudo isso  pode levar, por exemplo, a que o preço dos transportes ou do pão suba de um dia para o outro para o triplo, demissões de servidores públicos, cortes nas aposentadorias e salários (a começar pelos abonos de férias e de Natal, um “privilégio” que os jovens do FMI não entendem) e a transformação do Serviço Nacional de Saúde (SNS) num serviço residual.
Tudo se fará para obter o seal of approval do FMI, que restabelece a confiança dos credores no país. O objetivo não é que pague as dívidas (sabe-se que nunca as pagará), mas antes que vá pagando os juros e se mantenha refém da camisa de forças, para mostrar ao mundo que o modelo funciona.
Este itinerário não é difícil de prever porque tem sido esta a prática do FMI em todos os países onde tem intervindo. Rege-se pela ideia de que one size fits all, ou seja, que as receitas são sempre as mesmas, uma vez que as diferentes realidades sociais, culturais e políticas são irrelevantes
ante a objetividade dos mercados financeiros.
Feita a intervenção de emergência – que os portugueses serão induzidos a ver como uma necessidade e não como um certificado de óbito às suas justas aspirações de progresso e de dignidade –, entra o Banco Mundial para fornecer o crédito de longa duração que permitirá “reconstruir” o
país. Ou seja, para assegurar que os mercados e as agências de rating ditarão ao país o que pode e não pode ser feito. Serão ocultadas as seguintes irracionalidades:
Que o modelo imposto ao mundo está falido na sua sede, os EUA; que o FMI faz tudo para servir os interesses financeiros norte-americanos, até para se defender do movimento que houve no Congresso para extingui-lo; que o maior credor dos EUA, a China, e segunda maior economia do mundo, tem o mesmo poder de voto no FMI que a Bélgica; que as agências de rating manipulam a realidade financeira para proporcionar aos seus clientes “rendas financeiras excessivas”.
Claro que pode haver complicadores. Os portugueses podem revoltar-se. O FMI pode admitir que fez um juízo errado e reverter o curso, como aconteceu na crise do Leste da Ásia, em que as políticas do FMI produziram o efeito contraproducente, como reconhece Jagdish Bhagwati, um respeitado economista e free trader convicto, em In Defense of Globalization. Se tal acontecer, não é sequer imaginável que o FMI indenize o país pelo erro cometido.
Perante este agravamento concertado da crise, como buscar uma saída que restitua aos portugueses a dignidade de existir? Não discuto aqui quem serão os agentes políticos democráticos que tomarão as medidas necessárias, nem o modo como os portugueses se organizarão para pressioná-los nesse sentido. As medidas são as seguintes:
Realizar uma auditoria da dívida externa, que permita reduzi-la à sua proporção real: por exemplo, descontando todos os efeitos de rating por contágio de que fomos vítimas nos últimos meses.
Resolver as necessidades financeiras de curto prazo contraindo empréstimos, sem as condicionalidades do FMI, junto de países dispostos a acreditar na capacidade de recuperação do país, tais como a China, o Brasil e Angola.
Tomar a iniciativa de promover um diálogo Sul-Sul, depois alargado a toda a Europa, no sentido de refundar o projeto europeu, já que o atual está morto.
Promover a criação de um mercado de integração regional transcontinental, tendo como base a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e como carros-chefes Brasil, Angola e Portugal.
Usar como recurso estratégico nessa integração a requalificação da nossa especialização industrial, em função do extraordinário avanço do país nos últimos anos nos domínios da formação avançada e da investigação científica.
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Boaventura de Sousa Santos é diretor  do Centro de Estudos Sociais, Laboratório Associado, da Universidade de Coimbra