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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

PSD, Ficha Limpa, PT x PMDB e crise global embaralham cena 2012

extraído do Jornal Correio do Brasil.

Potenciais candidatos a prefeito no ano que vem não podem mais trocar de partido, mas uma série de fatores dificulta traçar cenários sobre eleição. Criação do PSD deve enfraquecer oposição a Dilma, mas campo governista estará ‘minado’ por disputa de espaço entre PT e PMDB. Decisão do STF sobre Ficha Limpa pode afetar candidaturas e crise global, também.

eleições municipais
O PSD é um partido que já nasceu com um grande número de representações políticas e poderá influenciar nas eleições municipais do próximo ano

A um ano das eleições municipais, a filiação partidária de potenciais candidatos já está definida – quem quiser concorrer não pode mais trocar -, mas o cenário em que se dará o pleito é imprevisível. A indefinição sobre a aplicação da Lei da Ficha Limpa, a tensão entre PT e PMDB, os dois principais partidos governistas, a rearticulação da direita no recém criado Partido Socialista Democrático (PSD) e a evolução da crise econômica mundial dificultam as análises.
Para especialistas, a entrada em cena do PSD é vista como o elemento que mais vai embaralhar as disputas. “É um partido que já nasceu com um grande número de representações políticas e, por isso, poderá influenciar muito o processo”, diz o cientista político João Paulo Peixoto, da Universidade de Brasília (UnB).
Capitaneado e presidido pelo prefeito paulistano, Gilberto Kassab, a nova legenda já nasceu como uma das maiores do país. Com cerca de 50 parlamentares, é a quarta maior bancada no Congresso, atrás apenas de PT, PMDB e PSDB.
Inventado com o objetivo de abrigar rivais de direita do ex-presidente Lula que se convenceram de que, com Dilma Rousseff, é melhor fugir do confronto com o governo, o PSD deve enfraquecer o campo oposicionista um pouco mais em 2012.
- Por mais que não queiram dar nome à ideologia adotada, é um partido de centro-direita que, ao contrário do PSDB e do DEM, não sofre com o estigma de oposição negativa- , diz o professor Fabiano Guilherme Santos, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de janeiro (UERJ).
Do lado governista, as eleições também se mostram desafiadoras. O motivo é a disputa entre PT e PMDB, que dividem o Palácio do Planalto, com Dilma Rousseff (PT) e o vice, Michel Temer (PMDB), mas, fora dali, vão lutar para ver quem tira mais proveito da máquina federal para eleger correligionários.
Sigla com mais prefeitos (20% do total), o PMDB sai em vantagem, já que candidatos à reeleição são sempre favoritos naturais. Já o PT, que cresceu historicamente a partir de cidades maiores, agora terá de bater de frente com o grande aliado e tomar dele o controle de prefeituras menores, caso queira manter-se em expansão.
Por isso, o pleito pode até ser encarado como o teste definitivo para o casamento dos dois partidos e para uma renovação da dobradinha em 2014, na sucessão presidencial. “A manutenção ou não da aliança vai depender da capacidade de articulação das lideranças. Há tensão entre o PMDB e o PT porque há limites para se equilibrar a relação entre eles”, afirma Guilherme Santos, que também preside a Academia Brasileira de Ciência Política.
À espera de um julgamento final sobre sua consitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a Lei da Ficha Limpa, que proíbe candidatura de político com alguma condenação judicial, não importa em qual corte, é outro fator que dificulta juízos definitivos sobre 2012. “Essa decisão poderá alterar diretamente a listagem de candidatos”, diz Peixoto.
A lei foi aplicada na eleição do ano passado, mas até hoje há candidato impugnado tentando reverter a decisão. E quanto mais o STF demora para dar uma sentença, pior – menos tempo para que todas as dúvidas relacionadas à lei sejam esclarecidas à população e aos próprios candidatos. “Isso acaba criando uma insegurança jurídica que prejudica o processo eleitoral”, critica Guilherme Santos.
Os dois cientistas discordam, porém, sobre o poder de a crise econômica global influenciar as disputas municipais de 2012. Para Peixoto, a capacidade de o governo reagir à crise com medidas que protejam o país pode ajudar ou prejudicar candidatos dilmistas. Já Guilherme Santos acredita que este tipo de crise interfere em eleições nacionais, não nas municipais locais, mais pautadas por temas paroquiais.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O sentido politico da “faxina” de Dilma


Ao agir de modo aberto contra corrupção, presidente pode deixar direita sem discurso. Mas até onde ela levará sua ofensiva?

Por Felipe Amin Filomeno*, colaborador de Outras Palavras e editor de blog pessoal


O que a “faxina” que a presidente Dilma Rousseff está realizando nos ministérios tem a dizer sobre a conjuntura social do Brasil contemporâneo? Num sentido amplo, é um fenômeno político implicado na trajetória de crescimento econômico com equidade social promovida desde 2003 pelas administrações do PT. Ao longo desta trajetória, as forças sociais conservadoras foram esvaziadas de um discurso crítico sobre política econômica e social, tendo que concentrar seus esforços em ataques à corrupção. Por outro lado, à medida em que a democracia se fortalece e problemas sócio-econômicos são minimizados, segmentos politicamente conscientes da sociedade tendem a apresentar novas demandas ao Estado, tal como o combate à corrupção.
A novidade de Dilma pode ser a passagem de uma estratégia defensiva para outra de ataque, capaz de enfraquecer ainda mais as forças conservadoras. A “social democracia globalizada” de Lula trouxe aumento da massa salarial e do nível de emprego, redução das desigualdades e incorporação de milhares de brasileiros à classe média. Como estratégia politicamente moderada de desenvolvimento, envolveu  a criação de uma ampla coalizão de centro-esquerda, tendo PT e PMDB como componentes principais. Para os intelectuais de esquerda e movimentos sociais mais radicais, a agenda meramente reformista de Lula foi uma decepção. O que estes talvez não tenham percebido é que foi justamente a “moderação” de Lula uma das principais causas de uma grande vitória da esquerda brasileira: a anulação do Democratas, principal representação partidária do neoliberalismo no país. O reformismo de centro-esquerda de Lula atraiu a classe média, trouxe benefícios aos pobres e, num momento de prosperidade, deixou a oposição sem um discurso que veiculasse um projeto alternativo ao país.
Na falta de uma estratégia focada em políticas econômicas e sociais, à oposição restou o ataque à corrupção. Isto não foi fácil. Em primeiro lugar, era preciso convencer a sociedade de que a corrupção era um traço distinto da administração do PT, ao invés de uma prática arraigada no Estado brasileiro que, por séculos, foi comandado por aquelas mesmas forças conservadoras em benefício das elites do país. Em segundo lugar, era preciso que tais ataques enfraquecessem não apenas o governo ou o partido, mas Lula, pessoalmente. Não funcionou. Apesar do mensalão, Lula derrotou Geraldo Alckmin.
Entretanto, não era nem o Democratas, nem o PSDB, o grande articulador da estratégia conservadora focada no ataque à corrupção. Foi a grande mídia tradicional, através de reportagens baseadas em versões e boatos, e de uma cobertura tendenciosa e desproporcional dos fatos. Seja em sua forma partidária ou em sua versão midiática, o ataque conservador à corrupção contribuiu mais para gerar crises de governabilidade do que para combater este terrível problema. Afinal, o ataque era muito mais fruto do oportunismo das forças sociais conservadoras do que de um compromisso com a ética no serviço público. Fosse isto teriam expurgado a corrupção do aparato estatal durante os 500 anos em que governaram o país, certo?
Bom, mas há um lado positivo nisso tudo. À medida em que o brasileiro se acostuma com a democracia, consegue emprego formal, obtém aumento salarial, e alcança um padrão de consumo de classe média, outros problemas – como a corrupção – passam a ganhar mais destaque em sua “agenda de preocupações”. Isso provavelmente aconteceria mesmo sem a pressão da mídia e me remete a algo que o Fernando Henrique chamou uma vez de “pedagogia da democracia”. É a este aspecto do problema que a administração de Dilma deve se voltar. Mais especificamente, é salutar que deixe a estratégia defensiva adotada no governo Lula (de tentar “blindar” o governo sem promover uma “faxina”) para uma estratégia ofensiva (promovendo de fato a “faxina”).
As dificuldades da nova estratégia estão na manutenção do apoio ao governo no Congresso, pois lideranças políticas envolvidas em casos de corrupção acabam afastadas da administração federal, e na perda do foco em outras prioridades do Estado (como o enfrentamento da crise mundial através de ajuste fiscal e política industrial). Por outro lado, seus benefícios estão em satisfazer demandas genuínas do eleitorado contra a imoralidade no serviço público, em aprimorar a gestão pública, e em esvaziar o conservadorismo do único discurso que lhe restou (o do combate a corrupção).

Felipe Amin Filomeno
é sociólogo e economista, doutorando em Sociologia pela Johns Hopkins University, com apoio da CAPES/Fulbright. Tem artigos publicados nas revistas Economia & Sociedade, História Econômica & História de Empresas, e da Sociedade Brasileira de Economia Política.

publicado no blog Carta Maior, em 29/08/11

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Uma decisão do STF que trocou seis por meia dúzia

publicado no blog Carta Maior em 25/08/11

Impregnado da ideia conservadora de que o mercado deve ser regulado o mínimo, porque é movido pela racionalidade do lucro, e de que a política, destituída de racionalidade e de bons propósitos, precisa de intervenções constantes que inibam a ação de interesses individuais e malfeitos coletivos, o senso comum brasileiro tende a apoiar as interferências constantes da Justiça nas regras eleitorais e a clamar por mais restrições legais à vida partidária.

A história da democracia recente do país, todavia, é a prova cabal de que são no mínimo discutíveis os efeitos de uma legislação draconiana, no que se refere a partidos politicos; e que o direito divino autoassumido pelo Supremo Tribunal Federal de regular coisas "mundanas e sujas", como o voto e os políticos, independentemente do que dizem as leis, é incapaz de resolver, por decreto, as limitações de um sistema partidário jovem, porém fundado em práticas tradicionais. Em suma, não existe lei partidária que mude, por si, uma realidade histórica.

Um exemplo de como são estéreis regras rígidas em um quadro partidário pouco maduro é o debate sobre a fidelidade partidária. No julgamento da consulta do antigo PFL (hoje DEM), sobre se o mandato parlamentar pertence ao eleito ou ao partido, o relator, ministro Gilmar Mendes, teceu considerações sobre um sistema que é, no seu entender, intrinsicamente corrupto, e em socorro do qual uma decisão favorável à fidelidade partidária - independente de o instituto estar claramente definido por lei - viria a atuar de forma favorável. A decisão do Supremo segurou as migrações partidárias nos últimos quatro anos, mas foi incapaz de resolver um problema estrutural da direita brasileira: com poucos vínculos ideológicos com o eleitor e sustentada em políticas de clientela, esse segmento ideológico não tem fôlego para sobreviver na oposição por muito tempo. Os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) foi mais do que quadros do DEM poderiam suportar na oposição.

Em vez de uma migração partidária média de 30% que tradicionalmente ocorria entre a eleição e a posse dos deputados federais desde 1982, segundo cálculo do cientista politico Carlos Ranulfo de Melo (Retirando as cadeiras do lugar: migração partidária, 1985-1998), e que era fracionada entre diversos partidos, a porteira fechada pelo STF em 2007 resultou na formação de um novo partido, o PSD, e no total destroçamento do ex-PFL, aquele que pediu a Gilmar Mendes para colocar grades nas agremiações partidárias. O PSD não vai se beneficiar da média histórica de defecções anterior à decisão do Supremo, mas o prefeito Gilberto Kassab, que inventou a história do novo partido, atirou no que viu e pegou no que não viu.

A legislação partidária prevê como exceções à regra da fidelidade a fusão ou incorporação de um partido a outro (os incomodados com o processo podem tomar o rumo que desejar) ou a formação de um novo partido. A criação de uma legenda é o máximo da liberalidade permitida na lei endurecida pela ação do STF: sai de qualquer partido quem quer participar da fundação do novo. Isso Kassab viu. O que não viu é que o chamado "partido-bonde", teoricamente constituído para permitir as defecções partidárias, poderia tornar-se, de fato, partido político - não apenas governista, mas com poder de barganha maior do que os pequenos partidos de direita, aliados de primeira hora mas com pouca bancada, e com parlamentares excessivamente despreocupados da repercussão de seus atos como participantes do governo.

O PSD se configura, hoje, como a única porta de saída para políticos marcados para morrer nas próximas eleições, ou por falta de espaço em seus partidos, ou por impossibilidade de manter a fidelidade de eleitores fora do governo. O prefeito Gilberto Kassab, sem querer, conseguiu ser o catalisador das dificuldades políticas impostas aos parlamentares abrigados no DEM e no PPS, que amargam oito anos na oposição, e dos pequenos partidos de direita, que estão no governo mas terão maior poder de barganha se se juntarem ao novo partido. A necessidade vai transformar um "partido-ônibus" numa legenda de fato. O PSD tem potencial para ser a terceira bancada na Câmara e ganha poder de fogo não apenas por apoiar o governo, mas por enfraquecer drasticamente a oposição.

Segundo um integrante do novo partido, o DEM deve perder de 11 a 13 parlamentares de uma bancada de 43 deputados federais (vai ser maior do que um PDT e menor do que um PSB). Ainda na oposição, o PPS, antigo Partidão, perde proporcionalmente mais bancada do que qualquer um para Kassab: 4 deputados em 12, ou seja, um terço dos eleitos em 2010 - uma defecção que não desmente a regra de que os partidos de direita são menos coesos, já que o ex-PC rumou fortemente para o conservadorismo, acompanhando a guinada do grupo tucano de José Serra.

Na bancada governista, perdem massa parlamentar os pequenos partidos com os quais o governo Dilma Rousseff vem acumulando problemas, como o PR e o PP. Por razões estratégicas - até para não inviabilizar coligações nas eleições municipais -, o PSDB foi poupado. O partido kassabista pode ganhar uma bancada federal com dois deputados a mais do que o PSDB e 12 a mais do que a bancada do DEM. Na sua frente, permanecem o PT e o PMDB.

A ilustrada decisão do STF não mudou em nada o quadro: os partidos de esquerda mantêm uma lealdade relativa de seus eleitos; os de direita acumulam defecções. Quando Luiz Inácio Lula da Silva conquistou o seu primeiro mandato de presidente, em 2002, com o apoio apenas de partidos de esquerda e pequenos partidos de direita, as legendas que apoiaram seu adversário tucano, José Serra, perderam deputados como se perde agulhas: entre a eleição e a posse, o PMDB passou de 75 para 69; o PSDB, de 70 para 63 federais; o PFL, de 84 para 75. O PPS, que era da base de apoio de Lula naquela eleição, engordou 6 deputados: sua bancada passou de 15 para 21 parlamentares. O PTB, governista sempre, aumentou sua bancada de 26 para 41 às custas das bancadas dos partidos derrotados no segundo turno das eleições presidenciais.

O Supremo Tribunal Federal (STF) conseguiu provar, com sua decisão sobre a fidelidade partidária, que a história política não se constrói por decretos. Um avanço mais significativo na distribuição de renda pode ser muito mais efetivo para a modernização política do país do que uma canetada da Suprema Corte.

domingo, 5 de junho de 2011

A crise e as saídas da crise

extraído do Blog do Emir, de 01/06/11

por Emir Sader

Se a crise é um momento de verdade, porque revela limites e contradições, o governo tem muito para refletir sobre sua primeira crise. Depois de surfar tranquilamente os primeiros meses, apoiado na herança positiva recebida, na vitória político-eleitoral e na maioria parlamentar conseguida, a crise de maio condensou problemas pendentes com novas circunstâncias que, se não enfrentadas de forma decidida, faz com que o governo saia enfraquecido dela e, em projeção futura, possa colocar em risco os avanços conquistados ao longo dos 8 anos do governo Lula. Ou pode sair mais forte, como saiu o governo Lula da crise de 2005. Depende da reação do governo diante dos problemas.

Os movimentos iniciais do governo foram os de buscar as adequações – indispensáveis, mas ainda não encontradas – na política econômica, que permitam superar o circulo vicioso entre elevar ainda mais a taxa de juros real mais alta do mundo ou o descontrole inflacionário. E o de dar continuidade na articulação entre a política econômica e as políticas sociais – o maior sucesso do governo anterior e que promete ter desdobramentos ainda maiores neste.

As crises tinham uma dimensão menor. A do Minc, por exemplo, não foi resolvida, o ministério ficou reduzido à intranscendência, até que seja possível reabrir horizontes melhores para as politicas culturais. Mas não tinha afetado o governo como um todo, embora pudesse haver indícios de formas de reação diante de problemas.

Nesta conjuntura, um problema pendente, que se sabia que tinha um potencial de enfrentamentos muito forte – a reforma do Código Florestal -, que requeria propostas concretas alternativas, coordenação política e mobilização social – desembocou numa derrota não apenas do governo, mas também dos movimentos sociais e do conjunto do campo popular. Resta o embate no Senado e o veto presidencial, apenas para diminuir os retrocessos da versão aprovada, com participação de partidos de esquerda, inclusive na emenda do PMDB, que promove a anistia dos desmatamentos. Mas é preciso consciência de parte do governo e das forças populares que foi um revés para as teses da esquerda, que foi perdida não apenas uma votação, mas uma batalha ideológica, que trouxe como uma de suas consequências, a divisão não apenas da base do governo, mas, muito mais importante, da esquerda e até mesmo do PT. Um dano que não demanda soluções administrativas, mas políticas, articulando alternativas de propostas, discussão intensa com os aliados e coordenação política - não demonstrados até aqui.

As acusações a Palocci coincidiram com essa votação e contribuíram para configurar uma situação de crise política para o governo. Ao deter o cargo mais importante no ministério, centralizando a coordenação política e outras funções anexas, as acusações - no mínimo – afetam duramente a capacidade de coordenação do governo e colocam à prova sua forma de reagir a denúncias – mais além dos objetivos desestabilizadores da mídia opositora – que revelam, pelo menos, comportamentos problemáticos por parte de um ministro importante no governo. Ainda que não se prove ilegalidades, restam sempre questionamentos sobre a ética publica de assessorias enquanto se detêm mandato parlamentar, cargo importante em comissão da Câmara e a eventualidade de informações privilegiadas e influências em setores do governo. A não revelação dos clientes, com a alegação de segredos profissionais, agrava a situação, que no seu conjunto paralisa a capacidade de ação politica do governo, justamente quando ele acumula temas graves na sua agenda – Código Florestal, emissão de MPs, entre outros. Porém, mais grave do que tudo isso, reflete que atitude o governo toma diante de situações que envolvem ética pública e podem definir critérios para todo o mandato.

Outros temas se agregaram a esses eixos da crise – dos problemas reiterados no Minc, passando pelos assassinatos no campo, por problemas no MEC, entre outros – para configurar uma mudança de clima e de conjuntura política. O governo perdeu a iniciativa, que detinha até esse momento, graças, principalmente, à excelência dos programas sociais. Passou à situação de defensiva, de responder a iniciativas opositoras ou a circunstâncias nas quais está fragilizado.

A falta de consciência dos problemas acumulados e dos elementos de fraqueza do governo, que permitiram sua irrupção, ou a falta de consciência, com visões redutivas, que não atingem o cerne das questões, é o pior conselheiro. Qualquer atitude que represente esconder a cabeça na areia, como o avestruz, é permitir que as dificuldades atuais se perpetuem e os recuos que o governo está dando, permaneçam no tempo, configurando uma correlação de forças desfavorável para governo e o campo popular.

O governo Dilma não sairá o mesmo da crise. Ou sairá mais fraco ou mais fortalecido. Como ocorreu em 2005, que foi o marco decisivo no governo Lula. A atitude que o governo tomar diante da crise atual – seja no Código, seja em relação a Palocci – vai definir um estilo de governo, uma forma de encarar os interesses públicos e a forma de enfrentar problemas da ordem da ética pública, que o marcará por todo o mandato.

Nunca como agora crise significa oportunidade. Será perdida ou ganha: está nas mãos do governo a decisão.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Eleição deixou lições mas também desafios




Partidos de oposição vivem efeitos de uma nova derrota 

Com três derrotas seguidas para a Presidência, duas com José Serra e outra com Geraldo Alckmin, o PSDB vive agora um cenário interno marcado por discussões e propostas. E nelas até uma fusão com o DEM que vive situação semelhante é admitida. Dois outros partidos de expressão, o PT e o PMDB, já passaram por situações semelhantes. O primeiro diante de derrotas em 1989, 94 e 98, todas com Lula e o PMDB nas duas tentativas com Ulysses Guimarães e Orestes Quércia. A recuperação não foi fácil e envolveu alianças com outros partidos ou mudanças de estratégia. Já o PT preferiu apostar na sua principal liderança em três eleições sucessivas, beneficiando-se do desgaste adversário a partir de 2002. Nessa fase, é bom lembrar, o PMDB também vivia várias e diversificadas situações, passando até por dissidências e alianças, estas ora com o PSDB, ora com o PT, mas sempre apostando na preservação de sua força parlamentar e estruturas estaduais. Estas acabaram conservadas e foram responsáveis por seu reerguimento agora.

Agripino Maia e Fernando Henrique Cardoso durante encontro no Senado.
O caso do PSDB é mais problemático? Até pode ser na medida em que perdeu parte de sua representação parlamentar e vive uma disputa interna. Verdade é que ainda dispõe dos expressivos governos de São Paulo e Minas, mas o primeiro, que está sob seu comando desde Mário Covas, enfrenta também problemas inesperados com o surgimento de um novo Partido, liderado pelo prefeito da capital paulista, ex-aliado e cujas adesões preocupam. Não estão faltando manifestações e conselhos de seu líder maior, Fernando Henrique, mas a dúvida que parece instalada no tucanato envolve também aspirações de Aécio Neves e José Serra e respectivos grupos. Aí residiria uma das diferenças da postura de outros partidos nos tempos adversos. A liderança maior, no caso do PT, mantinha viva o projeto ainda que adotando novas estratégias, ora com postura nova diante de crises econômicas ou buscando um nome confiável para a vice-presidência, fora de seus quadros.
O cenário político-partidário está assim com suas atenções divididas entre o desempenho da primeira mulher presidente de um lado e o futuro da oposição, tantos os problemas que esta têm pela frente e que não se limitam aos rescaldos da última derrota, embora ela tenha pesado.

PSDB se defende...

Uma forma de prestigiar os tucanos que permaneceram no Partido foi adotada, ontem, pela direção do PSDB. Assim terão cargos na Executiva Municipal 5 dos 7 vereadores que permaneceram na legenda. A bancada que tinha 13 vereadores, perdeu seis nas últimas semanas.

DEM e fusão

O presidente nacional do DEM, senador Agripino Maia já admite a possibilidade de fusão da sigla com o PSDB. Ontem, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso afirmou que "existem propostas" em andamento e que a preocupação é "manter a coesão dos partidos. "É algo a ser considerado, mas no momento apropriado", disse o dirigente do DEM, José Agripino. De acordo com o senador, as conversas com o PSDB são informais, e o assunto não é prioridade no partido, mas admitiu: " É uma possibilidade, e possibilidade é apenas possibilidade"... 


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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Com que roupa eu vou?, por Zé Reis* e Paulo Wayne**



                                                                          

Distante, ainda, 18 meses das eleições de 2012 e com apenas um candidato declarado, as cartas começam a ser jogadas.
Embora já com sua candidatura definida, o atual prefeito José Fortunati, todavia, não tem resolvida sua política de alianças e, tampouco, esboçada publicamente.
Após, ter herdado o comando do Poder Executivo da Capital, com a renúncia do então prefeito Fogaça, em 2010, alguns analistas políticos e algumas lideranças de esquerda, esperavam que no início deste ano de 2011, com a assunção do novo governador do estado com o apoio do PDT, o atual prefeito faria uma mudança de perfil do seu governo e poderia até mesmo aproximar-se do Partido dos Trabalhadores, não foi o que aconteceu. Ao contrário, com algumas trocas pontuais de secretários o governo municipal manteve a aliança com os principais partidos que já davam sustentação a administração da capital e conservou inalterada a política do governo municipal.
Mesmo que alguns setores importantes do PT, minoritários ainda, esbocem uma simpatia por apoiar o candidato do PDT, essa possibilidade dialoga pouco com a vida, pois representaria um rompimento do Prefeito com boa parte de sua base aliada na Câmara de Vereadores, tornando difícil a governabilidade logo no momento em que mais precisará de apoio político.
 Uma aliança PDT-PT, implicaria na imediata mudança da base aliada do atual governo municipal e não garantia maioria no plenário, pois teria apenas 12 vereadores. Logo, só se viabilizaria com a adesão de mais dois ou três partidos.  Assim, o risco dessa operação é muito alto, exigindo do prefeito, que hoje tem uma base sólida, o risco de desagregar a base de apoio sem a garantia de uma composição ampla para o próximo período.
  Portanto, tudo indica que o leque de forças que apoia o atual governo deverá se repetir, com poucas defecções, tendo como centro o PDT e o PMDB. Se tal hipótese se materializar teremos um bloco constituído por um partido da base do governo Tarso, os trabalhistas, com um dos seus principais adversários na Assembleia Legislativa, os peemedebistas. Restando saber qual será o papel dos demais partidos da base governista municipal: o PTB, o DEM, o PP, o PPS e o PSDB.
O PTB parece estar disposto a compor com um dos possíveis blocos. O PP tem a opção de apresentar a recém-eleita senadora, Ana Amélia Lemos, ou preservá-la para a eleição estadual de 2014. O DEM ensaia lançar o Dep. Estadual Paulo Borges, mas, provavelmente, dependerá das possibilidades de alianças. O PSDB poderá valer-se de um nome da família Crusius (Yeda ou Tarsila) ou de Nelson Marchezan Júnior para buscar fortalecer o partido e arregimentar forças para a próxima disputa estadual.
Desde a última eleição municipal PCdoB-PSB formaram um bloco político que tende a se repetir em 2012 e deve ter como candidata, mais uma vez, a Dep. Fed. Manuela D’avila. Essa aliança exerce uma forte pressão no PT, inclusive por dentro do governo estadual, para que sua candidatura seja a que represente as forças políticas que dão apoio e sustentação aos Governos Tarso e Dilma. Lastreada na expressiva votação obtida na eleição de 2010, a deputada procura se colocar como a principal opção do bloco, entretanto sempre fica a desconfiança de que poderá não ter fôlego para a disputa. Lembremo-nos que, em 2008, foi uma candidata com forte mídia e uma boa largada, mas esmaeceu na reta de chegada, principalmente, pela composição com o PPS e pela força da militância do PT, que lhe fez forte oposição. Sem a atração do PT para o bloco a tendência da candidatura de Manuela deve ser a mesma da eleição municipal passada. Largar bem e perder fôlego na chegada, até por que já não será mais uma novidade.
O Partido dos Trabalhadores ainda não definiu se aposta em uma candidatura própria ou apoia algum dos aliados. As manifestações das instâncias diretivas, mesmo que não públicas ainda, revelam cautela. Mas, grosso modo, podemos dizer que na esfera da direção municipal existe uma maioria inclinada por uma alternativa de candidatura própria. No âmbito estadual a cautela é maior ainda, não existindo uma maioria inclinada por uma ou outra opção, apenas, a certeza de que o caminho escolhido deve ser trilhado com todas as precauções possíveis para que tenha o menor impacto na base aliada dos governos estadual e federal.
Seja qual for a opção é certo que haverá decisões importantes a tomar.
Se optar por apoiar a candidatura de um dos aliados, PDT ou o bloco PCdoB-PSB, certamente terá que aparar arestas com o não escolhido, que no mínimo colocar-se-á em uma postura política neutra em relação ao governo estadual, estando, portanto, suscetível a pontualmente votar com a oposição. O risco aumenta se a escolha recair no bloco PCdoB-PSB, pois significará virar as costas ao PDT, que tem uma bancada maior na Assembleia Legislativa.
Escolher o PDT, se esse não romper o atual bloco de situação em Porto Alegre, com os riscos já abordados anteriormente, será aliar-se a seus algozes na eleição de 2004 e 2008. Além disso, os embates entre as bancadas do PT e PDT na Câmara de Porto Alegre tem sido frequente, principalmente, em relação a CPI da Juventude.
Igualmente, não se pode esquecer que há muito tempo a maioria dos dirigentes pedetistas, principalmente os da capital, optou por não aliar-se ao PT. Sendo exceção a atual participação no governo estadual, que se dá muito mais por uma intensa mobilização e opção do PT. Recordemo-nos que até o último momento o PT tentou incluir o PDT no leque de alianças e que o governador Tarso Genro manifestou interesse em contar com o apoio do PDT, ainda durante o processo eleitoral, mesmo o PDT estando aliado ao PMDB.  
Se prevalecer a opção pelo PDT, com certeza estará muito mais baseado em questões de sustentação do governo estadual do que nas questões municipais.
O ato do PT abrir mão de uma candidatura própria poderá ser visto como um gesto de grandeza e de não hegemonia. Mas, também, significará deixar de lado as melhores condições vividas para conquistar o governo municipal desde a derrota de 2004. Se em 1998, o fato de governar Porto Alegre foi importante à conquista do governo estadual. Em 2012, o efeito de governar o estado e o país deverá jogar papel significativo, por óbvio, na disputa pela capital. Sendo assim, é difícil acreditar que o PT não terá candidatura própria e vai abrir mão de um imenso capital político.
Porém, não é menos verdade, que essa opção ainda precisa ser materializada através de um nome, a princípio de consenso, que represente o partido na eleição. Até o momento apenas o Ver. Adeli Sell colocou o seu nome a disposição para a disputa. As outras possibilidades não se colocaram na disputa embora o leque de opções seja grande e variado. Raul Pont, Maria do Rosário, Adão Villaverde, Henrique Fontana e Sofia Cavedon são nomes ouvidos intramuros como possíveis alternativas.
Certamente, o PT não poderá abrir mão de seu papel de principal partido de esquerda e para bem representá-lo apresentar uma alternativa de candidatura própria. Essa definição deverá ser feita de forma segura e cautelosa, evitando turbulências junto aos aliados dos governos estadual e federal, principalmente, no 1ºturno, onde poderão concorrer mais de uma candidatura da base governista.  

*        Zé Reis – Secretário Geral do PT de Porto Alegre
**      Paulo Wayne – ex-Tesoureiro do PT de Porto Alegre

domingo, 24 de abril de 2011

PT supera PSDB em briga pela nova classe média



O PT largou na frente do PSDB na disputa pelos votos da chamada nova classe média, faixa que reúne as famílias com renda mensal entre três e dez salários mínimos.Dados da última pesquisa Datafolha mostram que os eleitores deste segmento social, também conhecido como classe C, são os que mais dizem preferir o PT entre todos os partidos políticos.

O PSDB tem o melhor desempenho entre os brasileiros mais ricos, com renda familiar acima de dez salários.A nova classe média virou sonho de consumo das duas legendas, que se revezam no poder desde 1995.

Nas últimas semanas, os ex-presidentes Lula (PT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB) a descreveram como o principal alvo a ser perseguido por seus partidos.Proporcionalmente, os eleitores que formam a base da classe C são os que mais dizem preferir o PT.

A sigla é citada como a mais admirada por 32% dos entrevistados com renda de três a cinco salários mínimos (entre R$ 1.636 e R$ 2.725).

GRATIDÃO

Para o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, o resultado reflete a "gratidão" de brasileiros recém-saídos da pobreza, que ascenderam socialmente nos anos Lula."São eleitores que acabaram de ganhar acesso aos bens de consumo e creditam sua ascensão social nos últimos anos a Lula e ao PT."

Os petistas alcançam seu segundo melhor resultado (29%) entre os eleitores com renda familiar de cinco a dez salários (R$ 2.726 a R$ 5.450).

Na fatia mais pobre, com orçamento até dois salários (R$ 1.090), a sigla tem 23%. Esta é a faixa mais alheia ao jogo partidário: 58% não têm uma legenda favorita.O menor índice do PT é justamente entre os mais ricos, com rendimento acima de dez salários (R$ 5.450).

Nesta faixa, que compõe as chamadas classes A e B, o partido é citado como o mais admirado por apenas 16%. Isso inclui a elite econômica e a classe média tradicional.O PSDB alcança seu melhor índice (10%) entre os eleitores da classe B, com renda entre dez e vinte salários (R$ 5.451 a R$ 10.900).

O pior resultado dos tucanos aparece entre os mais pobres. O partido é citado como o favorito por apenas 4% dos brasileiros das classes D e E.Na classe C, as citações oscilam entre 6% e 8%, conforme a faixa salarial.

Em artigo recente, o ex-presidente FHC disse que o PSDB "falará sozinho" se tentar disputar o "povão" com o PT e deve se concentrar na nova classe média."É um desafio grande", diz Paulino. "O PSDB terá que encontrar um discurso para esses eleitores, que querem garantias de que continuarão a melhorar de vida."

Pouco mais da maioria dos entrevistados (54%) diz não preferir nenhuma legenda. Estes eleitores tendem a escolher os candidatos sem considerar seus partidos.O PT aparece à frente das outras siglas em todas as faixas de renda. No total, registra 26% de preferência, contra 6% do PMDB (sem candidato à Presidência desde 1994) e 5% do PSDB.

No debate da reforma política, o PT defende a adoção da lista fechada, em que o eleitor só pode votar na sigla em eleições parlamentares. Nas condições atuais, isso daria mais vagas a petistas.
 
*extraído do Blog Amigos do Presidente Lula.